Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 13 de setembro de 2016 às 19:18

A candidatura natural de Assunção Cristas

 Não há nada que revele tanto a juventude da nossa democracia como a estranheza e o incómodo com que ainda são vistos aqueles que se declaram disponíveis para o exercício de cargos políticos.

Em Portugal, é quase impossível convencer alguém de que se tem apetência pelo serviço público (ou até um gosto simples e inofensivo pelo lado lúdico da política): toda e qualquer ambição há-de necessariamente ter um pecado capital por trás (a soberba ou a ganância, por exemplo). É por isso que uma pessoa que se queira dedicar ao ofício sem ser trucidada pela intriga e desconfiança alheias se deve conformar com o típico procedimento cínico: começar por dizer que não está disponível, incentivar nos bastidores uma "vaga de fundo" de opiniões favoráveis na comunicação social e, por fim, aparecer disponível, com ar grave, iniciando o discurso de aceitação do fardo com o regimental "é com grande sacrifício pessoal que aqui estou".

 

Felizmente, alguns políticos fogem ao padrão. Um deles é Assunção Cristas. A naturalidade com que disse que gostaria de suceder a Paulo Portas na liderança do CDS (o meu partido - fica a declaração de interesses), numa altura em que o tema era basicamente tabu, é a mesma com que agora se lançou para a Presidência da Câmara Municipal de Lisboa, sem se preocupar em demasia com os sinais vermelhos de um ambiente político tolhido pelo excesso de estratégia. Uma atitude descomplexada que ajuda a trazer a democracia portuguesa para a idade adulta. 

 

Um dos tais sinais vermelhos é a suposta dificuldade do CDS em Lisboa, que recomendaria, dizem, o resguardo da líder. Não percebo este argumento. Se a luta é difícil, por que razão se haveria de enviar a líder para longe? E qual seria a alternativa? Qualquer outra candidatura forte, de uma figura relevante, traria o mesmo risco de uma derrota com visibilidade. Por sua vez, uma candidatura fraca, de uma figura anódina, para cumprir calendário, seria assumir a derrota logo à partida.

 

Depois, existe também um certo espanto por o CDS não ter esperado pelo PSD (para - presume-se - ter a delicadeza de apoiar o candidato escolhido por este). Não compreendo por que motivo a submissão do CDS ao PSD seria a solução óbvia. Nenhum partido que se preze se pode remeter à posição de mordomo de outro partido. Muito menos o CDS em Lisboa, onde tem sido a única oposição de centro-direita (especialmente através do vereador João Pedro Gonçalves Pereira). Que méritos se conhecem ao PSD em Lisboa que mereçam um CDS submisso e sucedâneo? Não vejo quais.

 

Afastadas estas considerações, sobra uma verdade simples: Assunção Cristas é uma óptima candidata em Lisboa porque tem todas as condições para ser uma óptima presidente da Câmara. Aliás, é por essa razão que nos últimos meses a normalidade da sua candidatura foi ganhando tracção na opinião pública. Ninguém acha verdadeiramente que é uma ideia extravagante.

 

Assunção Cristas não é um daqueles políticos que inventam problemas só para conforto da sua visão do mundo. O seu ponto de partida é outro. É o do pragmatismo, tão incompreendido na actual cultura política hiperidentitária. Assunção olha para os problemas reais e pergunta de que modo as suas ideias políticas podem dar resposta aos mesmos. Foi assim enquanto ministra. E é assim que, em Lisboa, com o seu talento para se focar em medidas concretas, práticas e sensatas, será o contraponto perfeito ao caos de Fernando Medina.

 

Advogado

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