Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 04 de junho de 2019 às 20:30

Agustina, nome de verdade

Muitos leitores acham Agustina "difícil" porque são apanhados desprevenidos e em contramão na sua "estética da incompletude". Os romances de Agustina não são exactamente histórias contadas, nem desejam provar ou promover o que quer que seja.

São digressões contemplativas, assentes na plasticidade lúdica das palavras e das provocações que com elas se constroem; são sucessões surpreendentes de prazeres imediatos e breves, que muitas vezes parecem querer ficar-se pela ambição do aforismo, sem nos levarem a lado algum. Talvez a sua finalidade seja a de não terem finalidade. Mas isso é porque a partir dali não há mais caminho a percorrer: o que Agustina diz sobre qualquer coisa é tudo o que sobre ela há a dizer.

 

Mesmo na não ficção também assim é, muitas vezes. Uma das minhas passagens predilectas, coligida no "Dicionário Imperfeito", é sobre a Foz do Douro (a minha circunscrição de adopção). Agustina celebra-a precisamente pela sua "incompletude" física e espiritual. A Foz é o contrário do Porto e do seu "espírito do trabalho" (tão intenso que não pode derivar apenas da "ferocidade do lucro").

 

Numa região dedicada aos deveres da vida prática, a Foz é um pequeno colonato de "resistência ao mito da finalidade". "A Foz nunca foi um lugar público. As suas demarcações estão cheias de surpresas, de pequenos enganos para invasores, de paliçadas e reservas. A Foz Velha é completamente habitada por um espírito original, em que o tempo tem uma atenuada influência. Gente minuciosa no trabalho, mas não sacrificada por ele. Convivente, habitual, com gostos um pouco fantásticos, como o gosto musical ou do teatro, como o de falar do passado e ouvir os amigos. Sempre me pareceu que a Foz era romanesca mas indecisa no desfecho das suas histórias. O espírito do inacabado, que eu atribuo a todos os bons portugueses, paira aqui com mais integridade e complacência."

 

Agustina partilha desse "espírito do inacabado" e isso sempre a justificou, inevitável mas voluntariamente, como uma marginal no meio intelectual e cultural do seu tempo, em que a ortodoxia era a do "pensamento" como serviçal da política, e a política como serviçal de sistemas ideológicos abstractos e acabados, que se arrogavam de ter encontrado uma forma de triturar a complexidade do mundo em explicações simples, racionais e definitivas.

 

Agustina, para quem o mundo era antes um enorme paradoxo irresolúvel, vivia fora desse mundo de fantasia. "O conceito de intelectual que eu admito corresponde à espontaneidade na acção vivida como força prática, e não como aparelhagem teórica. Os bons sentimentos do intelectual escondem em geral uma violência abstracta mas não menos eficaz, não menos orientada para a destruição. Julgar a realidade exige participar nela. Não sendo assim, o intelectual, progressista ou reacionário, é parte de um espectáculo inatural, um caldo de sofismas que alimenta a imagem de si próprio como uma sentença narcísica."

 

É por isso que podemos ler Agustina todos os dias, sobre qualquer tema do momento, e ser surpreendidos pela sua hipercontemporaneidade. Porque aquilo que aos nossos olhos é a efémera "actualidade", aos dela é a história constante e previsível das nossas vidas.

 

O que há a dizer sobre uma operação Stop do Fisco e da GNR? Que "há um lado de criminoso económico em todo o ser humano, que acaba sempre por ser visto como um peso morto pelo especialista da administração". O que há a dizer sobre os afazeres da "Europa"? Que "o sentimento europeu não é nada. É algo a que o indivíduo não é sensível através da virtude, mas a que pode chegar através da instrução dessa virtude; algo que pode servir como política, mas não como pensamento. Para um emigrante que batalha quotidianamente com a ingratidão da própria atmosfera moral em que tem de permanecer, o sentimento europeu é um desacordo com todos os hábitos que se lhe impõem, e é sobretudo uma valorização apaixonada de tudo aquilo de que se privou - a pátria, os costumes que moldaram uma parte da sua natureza".

 

Agustina dizia que "o discípulo não pode chamar o mestre pelo nome, o mestre é a verdade". Mas o nome da verdade, no nosso tempo, foi o nome de Agustina.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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