Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 09 de outubro de 2018 às 19:48

Brasil: uma eleição, dois plebiscitos 

A democracia brasileira, com o PT à cabeça, fez tudo para entregar o poder a Bolsonaro. Podemos lamentá-lo, mas não nos podemos surpreender.

Quando a atenção do mundo se voltou para o Brasil, a eleição presidencial já parecia um plebiscito a Jair Bolsonaro. O candidato seguia destacado nas sondagens, com francas probabilidades de vencer, e a campanha resumia-se a um concurso de gritaria entre os que o apoiavam e aqueles para quem qualquer um servia, desde que #EleNão. Mas se a eleição se transformou num plebiscito a Bolsonaro, é porque na origem ela é um plebiscito ao PT.

 

Podemos ter as teorias mais sofisticadas sobre a longa caminhada ruinosa da democracia brasileira, mas nenhuma serve para explicar a eleição de 2018 se se desprezar o que invariavelmente sai da boca dos eleitores de Bolsonaro. O que o colocou na fronteira da vitória, e o Brasil à beira desse abismo assustador, foi a brutal rejeição do legado do PT. O desastre económico, o descontrolo do desemprego e da criminalidade, a corrupção e o desafio frontal ao sistema judiciário que a tenta combater.

 

Reconhecer isto não é aceitar Bolsonaro. Não se trata de o defender ou normalizar, ou de o equiparar aos adversários democráticos. Trata-se de pensar depois de ouvir os brasileiros, em vez de pensar alto no que gostaríamos que os brasileiros dissessem. Trata-se de lembrar que tudo tem causas e consequências - e que, quando não queremos ver as causas, mais facilmente sofremos as consequências. Trata-se, no fundo, de tentar perceber por que razão grande parte do povo brasileiro se sente entalado entre a causa e a consequência, entre uma quadrilha de criminosos e um gangue de protofascistas.

 

Recusar fazê-lo é uma cobardia inaceitável num democrata. Actuar como se um fascista surgisse de geração espontânea, como se bastasse abominar o fascista para derrotar o fascista, é uma desistência política. E discutir com base nos argumentos que nos dão jeito, mas que os próprios eleitores não esgrimem, é sinal de um estado avançado de sectarismo ou degenerescência intelectual. Não é por um democrata - qualquer democrata - ser sempre melhor do que um autocrata que os democratas devem condescender com aqueles que, do seu lado, colocam a democracia em risco.

 

O PT teve uma oportunidade de ouro para mudar o Brasil. Teve legitimidade popular, ampla e reiterada. Teve tempo. Teve a legitimidade histórica de ser o partido dos de baixo, que supostamente defendia a larga maioria dos excluídos contra a esmagadora minoria dos que saqueavam o Brasil. Teve dinheiro, com a alta do preço do petróleo. E teve a boa vontade da comunidade internacional, mais uma vez embevecida com a cultura brasileira e a crónica promessa do Brasil como "o país do futuro". Fez-se a Olimpíada, o Mundial de Futebol, a Monocle e a Wallpaper assentaram arraiais e publicaram edições extasiadas.

 

O que o PT conseguiu foi, mais uma vez, dar razão à frase de Millôr Fernandes: "Brasil, um país do futuro. Sempre." Na economia, limitou-se a redistribuir a riqueza. Uma opção louvável que, sem estímulo à economia privada, sem alternativa à subsídio-dependência (com um peso absurdo no Orçamento do Estado brasileiro), e excessivamente dependente do preço do petróleo (que haveria de cair, como caiu), acabou por levar à recessão e à crise social.

 

Na luta contra a corrupção, é o que se sabe. De último reduto contra o saque, o PT transformou-se no maior símbolo da política corrupta. Foi decapitado por condenações (como outras forças, à esquerda e à direita), ferido mortalmente na sua legitimidade histórica, e ainda aproveitou para, com a oposição feroz à Justiça, perder parte da sua legitimidade moral enquanto força democrática, que tão útil lhe (nos) seria agora.

 

Neste cenário de devastação, o que fez em 2018 o PT? Candidatou Lula da Silva, o líder histórico, condenado por corrupção. Como o tribunal não permitiu, escolheu-se Haddad, um homem de palha, uma formalidade indigna, um porta-voz que se reúne conspícua e diligentemente com o seu amo na cadeia, onde recebe instruções antes de subir a palanques ornamentados com a cara daquele.

 

Dos dois plebiscitos, ao PT e a Bolsonaro, desconheço qual determinará a eleição. O que sei é que a democracia brasileira, com o PT à cabeça, fez tudo para entregar o poder a Bolsonaro. Podemos lamentá-lo, mas não nos podemos surpreender.

 

Advogado

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