Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 23 de outubro de 2018 às 19:16

Conservador nos tempos de cólera

Uma pessoa que pense politicamente o mundo em que vive tem a obrigação de se perguntar de que forma podem os seus princípios ser úteis em cada momento. Não basta ter princípios e anunciá-los.

É preciso saber aplicá-los às circunstâncias, deixando que eles sejam contaminados, testados e reapreciados pela realidade. Os princípios são imutáveis; a sua aplicação é contingente. Se preferirmos que seja a realidade a afeiçoar-se aos nossos princípios, ficaremos confortáveis numa ilusão de superioridade moral, mas não estaremos verdadeiramente a participar no debate político.

 

O assunto do nosso tempo é o regresso dos extremos e a crise da democracia liberal. Celebrar essa crise ou combatê-la é a grande questão que se põe. Quem estiver do lado do combate (como eu estou) tem de perceber que armas tem, que princípios pode enviar para o campo de batalha. Quem for conservador (como eu sou) tem aqui uma dificuldade: em boa parte, os novos antidemocratas dizem que são conservadores. Da Polónia aos Estados Unidos, da Hungria ao Brasil, muitos inimigos da ordem liberal aparecem como "conservadores". É por isso que o primeiro combate de um conservador, nestes tempos, tem de ser um combate filosófico, que despolua as ideias conservadoras do vírus populista. Só assim terá legitimidade para combater também a esquerda radical, igualmente inimiga da liberdade.

 

Bem sei que Orbán ou Bolsonaro apelam à ideia de "ordem" - e que a "ordem" é o valor predilecto do conservadorismo político. Mas os conservadores foram aprendendo ao longo dos séculos (pelo menos desde Edmund Burke) que não é qualquer ordem que interessa. A única ordem verdadeira é a ordem espontânea, aquela que surge e se sedimenta a partir das relações naturais entre os indivíduos e da construção das suas instituições livres. Quanto mais é imposta, menos a ordem é genuína e duradoura, e mais terá em si a semente da revolução e do caos. A apropriação desta ideia de "ordem espontânea" foi a chave para que, no século XX, os conservadores se conciliassem em definitivo com o liberalismo.

 

Por ser defensor da ordem espontânea, o conservador é um pluralista: sabendo que a natureza e as relações humanas são ilimitadamente complexas e intrincadas, percebe que os políticos devem tratar a sociedade como um organismo vivo, respeitando a sua liberdade intrínseca.

 

Por ser defensor do pluralismo, o conservador é um democrata e um parlamentarista. Porque só com uma democracia e um parlamentarismo a funcionarem decentemente se impede a concentração de poder e se promove a representação o mais perfeita possível dos interesses conflituantes. E só assim se assegura uma ordem política genuína e duradoura.

 

Por ser um defensor do pluralismo e da ordem espontânea, o conservador é um liberal. Esta conclusão ainda é contra-intuitiva para muita gente, mas a verdade é que os conservadores contemporâneos compreenderam que não existe progresso orgânico, ordenado e pacífico (como tanto gostam), sem liberdades políticas, cívicas e económicas. É por isso que, especialmente no mundo anglo-saxónico, muitas vezes os conservadores se classificam a si próprios como "conservadores-liberais". O pensamento conservador moderno, de Burke a Roger Scruton, é mesmo isto: uma tentativa de articular a ideia de liberdade à luz da visão conservadora da ordem social.

 

Posto isto, é preciso dizer ainda que o conservador tem a obrigação de ser um moderado, um consensualista ou, se quisermos, um centrista. De certa forma, o centrismo é um sinónimo do conservadorismo. Não é uma posição de equidistância pura, mais ou menos oportunista. O centrismo é procura do compromisso. É, por assim dizer, uma ideologia processual, mais do que uma ideologia substantiva. Isto não significa que um conservador não deva ter posições irredutíveis, principalmente se a cedência ao adversário implicar a negação do essencial dos seus valores. O que se quer dizer é que a sua predisposição é, por regra, a de fazer a síntese dos antagonismos.

 

Nos novos "conservadores" populistas só vejo descrença na liberdade, no pluralismo e na democracia. Eles não são, por isso, apenas uma versão adulterada daquilo que eu penso. São, pura e simplesmente, os meus inimigos.

 

Advogado

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