Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Francisco Mendes da Silva 08 de Abril de 2020 às 10:20

Havemos de nos encontrar novamente

Nenhum desses objetivos tem a humanidade suficiente para ser o guia moral unificador, ao mesmo tempo espiritual e concreto, de que neste momento precisamos. Isabel II deu-nos esse ponto cardeal. Havemos de nos encontrar novamente.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 1
  • ...

A rainha de Inglaterra falou aos britânicos e, nos minutos seguintes, um pouco por todo o mundo as redes sociais ficaram inundadas com a frase “We’ll meet again” (“Encontrar-nos-emos novamente”), título da canção de Vera Lynn, do tempo da Guerra, que Isabel II citou no fim da sua mensagem.

Porque causou a mensagem tal impacto? Desde logo, porque é raro a rainha falar. Esta foi apenas a quinta mensagem deste tipo num reinado que já leva quase sete décadas. Cinco vezes é mais ou menos a média semanal com que outros chefes de Estado (acham que) fazem proclamações solenes.

Bem sei que os monarcas britânicos estão constrangidos constitucionalmente e não podem andar a pronunciar-se a toda a hora sobre as atribulações da nação, como se fossem operacionais políticos normais. E também sei que qualquer líder eleito democraticamente tem outros deveres de comunicação e responsabilização perante os “súbditos”. Mas saber exercer a solenidade da palavra é um talento que não depende do regime político. Quando as palavras de um chefe de Estado são bem medidas, quanto ao conteúdo e à oportunidade, o seu peso é enorme. E não há liderança política sem o peso das palavras.

A liderança precisa de confiança, a confiança precisa de gravidade, a gravidade precisa de solenidade, e a solenidade precisa de alguma raridade bem ponderada. Se os discursos de um chefe de Estado se tornam tão frequentes quanto os boletins noticiosos e tão banais quanto os relatórios de um diretor-geral, haverá sempre um momento a partir do qual já ninguém liga a televisão, ou em que as palavras passam a ecoar pelas casas, sem sobressaltar nem estimular, anódinas como a música num elevador.

Quando Isabel II anunciou que ia falar, isso bastou para que os britânicos percebessem que tinham de parar e escutar. O mero anúncio foi meio caminho andado para que a mensagem passasse. O conteúdo fez o resto, nem displicente nem apocalíptico, tocando com precisão em tudo o que devia ser dito: a dificuldade da situação e a necessidade de cumprir as regras de segurança, mas também a dedicação dos profissionais de saúde e o espírito comunitário, de autodisciplina e de “determinação bem-humorada” que há de vencer pandemia.

A introdução cirúrgica da referência à canção de Vera Lynn transformou “we’ll meet again” no mantra que nos guiará daqui em diante.

Há um mês que nos pedem para ficarmos em casa em nome de objetivos gráficos, técnicos, gerados na frieza da estatística. Temos de “achatar a curva” e atingir o “pico da pandemia”. Enquanto isso, fazemos contas aos ventiladores, às camas de hospital, às progressões exponenciais, às percentagens de novos infetados.

Nenhum desses objetivos tem a humanidade suficiente para ser o guia moral unificador, ao mesmo tempo espiritual e concreto, de que neste momento precisamos. Isabel II deu-nos esse ponto cardeal. Havemos de nos encontrar novamente.

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias