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Francisco Mendes da Silva 29 de Abril de 2020 às 10:40

Lembrar uma tragédia para evitar outra tragédia

Para além disso o vírus retirou-nos visão periférica. A preocupação com a pandemia deixou-nos cheios de ângulos mortos, outras crises que deixámos acontecer porque afunilámos a nossa atenção na ameaça desconhecida.

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Tiago Rodrigues, director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, deu na semana passada uma boa entrevista à RTP. Em dado momento referiu de passagem “Antígona”, para perguntar se depois da pandemia o público da tragédia de Sófocles não passará a simpatizar um pouco mais com Creonte, rei autoritário de Tebas, que legitima a dureza das suas decisões na necessidade de manter a ordem, promover o bem comum e proteger os seus súbditos.

Uma dessas decisões, de que a tragédia trata, é a de proibir que o corpo do “traidor” Polinices tenha a dignidade de uma sepultura. Antígona, sua irmã, viola o édito, cuida com piedade do cadáver e arrisca a pena de morte, em nome do que a sua consciência lhe diz sobre a justiça e as leis naturais.

“Antígona” é a história do conflito entre duas legitimidades políticas opostas, duas ideias sobre a ordem e o bem comum – a ideia da “razão de Estado” e a da razão “natural” ou “divina”. Ambas são “legítimas”, à sua maneira, mas inconciliáveis. E é aí que está a origem da tragédia.

Recordar “Antígona” é uma forma feliz de ilustrar um dos problemas mais importantes da pandemia: com que reputação sairão daqui os regimes políticos? Será que a suposta eficácia de alguns regimes autoritários no combate à covid-19 vai fazer com que o mundo olhe para eles com maior admiração ou compreensão? Será que passaremos a valorizar mais a existência de Estados protectores e paternalistas, e menos os processos democráticos, tantas vezes complexos, demorados e frustrantes, e as liberdades individuais, cívicas, políticas e económicas?

Tenho estas perguntas como cenário mental sempre que se fala do inquérito internacional que alguns países querem fazer sobre a propagação do novo coronavírus a partir da China e o modo como o regime de Pequim lidou inicialmente com a situação.

Essa investigação é indispensável – e não só para que no futuro estejamos científica e estrategicamente mais preparados em circunstâncias idênticas. Ela é indispensável porque é preciso confrontar o mundo com o lado lunar da reacção dos regimes autoritários à pandemia, que também nos trouxe ao ponto em que estamos.

É óbvio que há alguns cuidados fundamentais a ter, com os habituais paninhos quentes da diplomacia. Seja o de não confundir o regime com a própria China – o país, o povo, a cultura –, para não dar gás ao ambiente de sinofobia que já anda por aí, seja o de evitar qualquer acrimónia que impeça que a investigação tenha acesso a informações relevantes e produza resultados práticos.

Mas as democracias liberais têm de ter a noção de que a pandemia colocou uma pressão enorme sobre a sua legitimidade e que estão num combate pela sua própria sobrevivência.

Por todo o lado há estados de emergência com confinamentos agressivos obrigatórios, totalmente contrários ao espírito da nossa civilização.

Para além disso o vírus retirou-nos visão periférica. A preocupação com a pandemia deixou-nos cheios de ângulos mortos, outras crises que deixámos acontecer porque afunilámos a nossa atenção na ameaça desconhecida: a devastação da economia, do emprego, da saúde mental; todas as doenças que deixámos de controlar e tratar; o medo que as pessoas têm de ir aos hospitais; a tensão sobre os equilíbrios familiares e os sistemas políticos; a perda de confiança na União Europeia.

Sem esquecer que o vírus ataca com mais violência precisamente as sociedades mais abertas e avançadas. Se a pandemia afectou como afectou países como Itália, os Estados Unidos, a Coreia do Sul, o Reino Unido ou Espanha, é porque são dos países mais expostos ao tráfego internacional. Não querendo varrer para debaixo do tapete as culpas próprias dos governos democráticos, que também as têm, vale a pena perguntar em que estado estariam aqueles países se tivessem sabido, mais cedo e com mais pormenor, o que se passava na China.

Se se confirmar que o mundo foi prejudicado pelo “modus operandi” típico dos regimes autoritários – por causa da sua opacidade, da ocultação sistemática de informação, da mentira enquanto política de Estado –, então não só temos o direito de o saber como os regimes democráticos e liberais têm a obrigação moral e política de o dizer. Seria trágico se não o fizessem.

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