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Francisco Mendes da Silva 14 de Abril de 2020 às 20:35

Não temos nada a aprender com a pandemia

O absolutismo moral não é apenas um perigo para o mundo pós-pandemia. É um risco que não podemos correr se queremos vencer o vírus. Porque aquilo que o vai vencer é o génio humano. É o espírito científico. São os retrovirais e a vacina.

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Já que a pandemia tem sido uma Disneylândia para videntes e estatísticos de todo o tipo, profissionais ou de circunstância, arrisco também uma previsão: 2020 registará o número recorde de teses publicadas sobre o fim do mundo tal como o conhecemos.

Se ainda não atingimos o pico ou o planalto, nem consigo imaginar o que ainda está para vir, porque o que por aí circula já é de impor respeito: estamos a assistir ao início do fim do capitalismo; ao regresso das fronteiras e do confinamento dos humanos no seu território pátrio; à vitória final da autoridade do Estado, ama-seca de todos nós; à submissão dos humanos ao controlo tecnológico; à derrota do “hedonismo” e à desforra da espiritualidade. O Estado, o território, a tecnologia e a espiritualidade: ontem inimigos, hoje unidos e implacáveis na missão de nos salvarem de nós próprios.

Há teses de todo o tipo, mas há algo que liga os oráculos da pandemia: a ideia de que o vírus é um castigo para a húbris humana. Fomos longe demais e agora o mundo está a notificar-nos do resultado das nossas acções. A pandemia é uma lição e uma hipótese de redenção. Se soubermos bater a bola baixinho e reduzirmo-nos à nossa insignificância, talvez tenhamos salvação.

A rapidez com que estas profecias se propagaram não surpreende: na verdade, ninguém inventou o que quer que seja, porque não há nenhum desses novos videntes que antes do vírus não defendesse já aquilo que agora diz ser inevitável. Não foi a pandemia que os fez pensar como pensam: eles já pensavam assim.

Posso andar distraído, mas ainda não apanhei um desses profetas que se tenha espantado com o cisne negro do coronavírus a ponto de mudar aquilo em que acreditava. Para nenhum deles a pandemia é uma premissa; é, isso sim, uma ilustração. E por isso as suas profecias não são o produto do raciocínio; são o fruto do desejo. São teorias de bolso, requentadas, prontas a usar.

Não deixa de ser extraordinária a facilidade com que tantas pessoas conseguem prever o futuro e tirar conclusões políticas, éticas e civilizacionais, aplicáveis para todo o sempre e a toda a Humanidade, a partir de um acontecimento natural, excepcional, que nunca previram e que em si mesmo não tem qualquer valor moral.

Devemos olhar para estas teses com cepticismo, mas não podemos deixar de as levar a sério. É que elas estão de acordo com o humor do tempo, têm um público ávido, e mostram que a pandemia veio reforçar o espírito de absolutismo moral que já se vinha instalando nas sociedades ocidentais. Se o mundo nos promete o apocalipse, dizem-nos, então a nossa defesa tem de ser apocalíptica. Temos de pensar o impensável, tentar o que nunca quisemos tentar e pôr em crise as nossas crenças.

Este é evidentemente um espírito antiliberal, antipluralista e antidemocrático, porque a resposta apocalíptica, seja qual for, é sempre apenas uma, é inevitável, custa o que tiver de custar, não dá espaço para hesitações, contraditórios, sínteses ou alternativas. A ordem e a segurança estão acima de tudo. As liberdades que sobrevivam nos intervalos e nos limites do possível.

O absolutismo moral não é apenas um perigo para o mundo pós-pandemia. É um risco que não podemos correr se queremos vencer o vírus. Porque aquilo que o vai vencer é o génio humano. É o espírito científico. São os retrovirais e a vacina. São Estados, empresas e cientistas de todo o mundo, em todo o mundo, a circularem e a trocarem livremente ideias e experiências. E aquilo de que o génio humano precisa é do mundo como o conhecemos. Um mundo que o reconheça, celebre e liberte. Não um mundo que o culpe, envergonhe e constranja.

 

O nosso destino não é o de aceitarmos, cabisbaixos, as “lições”, o castigo e a regressão civilizacional.



Sim, há muito onde devemos melhorar os nossos comportamentos individuais e colectivos, e há muito onde nos devemos organizar melhor enquanto comunidade. A pandemia dá-nos essa oportunidade. Mas não há nenhum princípio fundamental das nossas sociedades contemporâneas, abertas e compassivas, que devamos deitar fora.

O nosso destino não é o de aceitarmos, cabisbaixos, as “lições”, o castigo e a regressão civilizacional. É o de, mais tarde ou mais cedo, recuperarmos a normalidade. Porque, no essencial, não temos nada a aprender com a pandemia.

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