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Francisco Mendes da Silva 06 de Maio de 2020 às 09:40

O 1.º de Maio deu munição aos populistas

Quando os portugueses tinham as suas liberdades de circulação e reunião profundamente limitadas, quando muitos não puderam ver familiares, organizar e participar noutras manifestações importantes – sociais, culturais ou religiosas –, o tratamento dado à CGTP foi um benefício escandaloso.

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Uma boa forma de saber o quão absurda é uma determinada ideia é medir a velocidade a que dela se distanciam os seus responsáveis quando a ideia dá para o torto. Quanto mais rápidos forem a sacudir a água do capote, mais absurda é a ideia. Segundo este método, era difícil que a celebração do 1.º de Maio que a CGTP montou este ano fosse uma ideia mais disparatada.

O Presidente da República cedeu à Intersindical e colocou uma excepção feita à medida no seu decreto de renovação do estado de emergência. Aliás, de forma propositadamente ambígua, a excepção nem sequer foi posta num artigo do decreto, mas apenas insinuada, de forma bastante vaga, nos considerandos iniciais. Nessa altura, o Presidente informou os jornais de que acompanharia de perto os planos para que a ideia não descambasse. Pelos vistos distraiu-se e, mal se apercebeu da polémica, lavou as mãos dizendo que o que tinha em mente era uma ocasião “mais simbólica e restritiva”. Marcelo sabe muito.

O Governo, que quer os sindicatos e o PCP com rédea curta, aceitou de bom grado a incumbência de controlar com a DGS a organização da CGTP. Mas depois de o mal estar feito também andou num rodopio a diluir culpas.

A ministra da Saúde deu uma entrevista à SIC que, nesta matéria, foi desastrosa. Marta Temido chegou a ponto de desvalorizar o facto de muitos dos participantes se terem deslocado entre concelhos, o que no dia da manifestação estava proibido para a generalidade das pessoas. Segundo a ministra, uma coisa são os indivíduos e “os seus gostos pessoais”; outra coisa são os indivíduos em colectividade. Foi o momento alto da entrevista: eu, sozinho, não podia sair do concelho onde estava; porém, se me juntasse a uma multidão, talvez já pudesse. Ou seja, o Presidente e o Governo estabeleceram uma regra, mas a CGTP podia fazer o que bem entendesse com ela. Se o que fez foi mal feito, culpa da CGTP.

Pelo meio, ainda se tentou encharcar as redes sociais com a tese de que o PSD e o CDS partilham da responsabilidade pelo 1.º de Maio, porque também aprovaram a autorização para o decretamento do estado de emergência.

É uma estratégia desonesta, que aproveita a natural ignorância das pessoas sobre estes assuntos. A AR só decide se autoriza ou não o Presidente da República a decretar o estado de emergência. Não há qualquer votação do decreto presidencial, muito menos uma votação na especialidade que permita negociar ou impor alterações. Quem quisesse impedir a celebração da CGTP teria pura e simplesmente de votar contra o estado de emergência.

Que sentido faria isso? Que lógica teria um partido votar contra todas as medidas que achava adequadas a combater a pandemia só para impedir o 1.º de Maio da CGTP, ainda para mais quando este estava previsto num considerando impreciso, que não permitia descortinar minimamente o que passava pela cabeça dos sindicatos?

Para percebermos como esta tese é caricata, basta pô-la ao contrário: o PCP votou contra o estado de emergência, logo foi contra o 1.º de Maio da CGTP, certo?

Não está aqui em causa a importância do 1.º de Maio. Todas as sociedades têm liturgias indispensáveis à afirmação dos valores comunitários. O Dia do Trabalhador é uma delas. Mas o que define uma comunidade democrática e pluralista é que nela coexistem muitos valores e muitas liturgias fundamentais, e o Estado deve abster-se de demonstrar preferências injustificadas por qualquer uma delas.

Quando os portugueses tinham as suas liberdades de circulação e reunião profundamente limitadas, quando muitos não puderam ver familiares, organizar e participar noutras manifestações importantes – sociais, culturais ou religiosas –, o tratamento dado à CGTP foi um benefício escandaloso.

E foi um péssimo sinal, ao mais alto nível, que deu munição àqueles que dizem que a classe política se acha uma casta à parte, à qual não se aplicam as mesmas regras que valem para o comum dos mortais. Quando aqueles que organizaram, permitiram ou justificaram o que se passou na Alameda nos voltarem a falar do combate ao populismo e ao apelo dos extremos, já não terão a mesma legitimidade. Os que a têm, claro – não estou a falar das autoritárias alminhas comunistas. Uma pena: toda a ajuda é pouca.

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