Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 26 de fevereiro de 2019 às 20:23

O dia de hoje diz-nos pouco sobre o dia das eleições

A maioria dos comentadores, contra os ensinamentos do passado, ainda se dedica ao ofício com base na portuguesíssima tradição de prever o futuro a partir das sondagens do dia, sem mais sofisticação ou prudência. É um erro.

Há poucas semanas, no início de 2019, não havia praticamente um único comentador político que não achasse que, com grande probabilidade, as Legislativas deste ano seriam uma marcha triunfal do PS rumo à maioria absoluta. Hoje são muito menos os que apostam nesse sentido. O que aconteceu?

 

Desde logo, aconteceu o que acontece habitualmente: a maioria dos comentadores, contra os ensinamentos do passado, ainda se dedica ao ofício com base na portuguesíssima tradição de prever o futuro a partir das sondagens do dia, sem mais sofisticação ou prudência. É um erro.

 

Não que as sondagens estejam necessariamente mal feitas. Convém é ter sempre presente que, na melhor das hipóteses, elas mostram apenas a fotografia de um determinado momento, sem nada nos conseguirem dizer sobre os factos, as correntes de opinião e as dinâmicas políticas que, na altura certa, acabarão por pesar no comportamento dos eleitores. É por isso que, quanto mais afastadas de um acto eleitoral, mais imprestáveis são as sondagens para o exercício de prever os resultados.

 

Um facto de que por norma se esquece quem anda a fazer, reportar e comentar política é que a maior parte das pessoas, bem ou mal, não está quotidianamente atenta ao fenómeno. E quando só está a pensar em eleições quem só pensa mesmo em eleições, as sondagens valem muito pouco. São úteis para revelar o humor geral de um certo momento, mas esse momento, por si só, pouco nos diz sobre o dia das eleições.

 

Fazer previsões só com base na evolução das sondagens é, portanto, uma actividade bastante preguiçosa e fútil, e que além do mais sujeita o analista ao ridículo de andar numa montanha-russa de opiniões, totalmente dependente das variações de uma opinião pública que, em média, está muito menos engajada e atenta ao dia-a-dia da actualidade política do que o próprio analista.

 

A recente erosão do PS nas intenções de voto (aparente nas sondagens) é um bom exemplo disto, porque quando aquelas davam os socialistas na fronteira da maioria estava já disponível um conjunto de dados que, bem analisados, deveriam ter moderado as análises.

 

Em primeiro lugar, há os dados da conjuntura, com o arrefecimento da economia europeia e, por arrasto, da economia portuguesa, que tem crescido menos do que as previsões do Governo.

 

Em segundo lugar, há as perspectivas dos portugueses sobre o futuro da situação económica, que estão no nível mais baixo desde 2016. Também por isso, de resto, a confiança dos portugueses no Governo está consistentemente em queda há quase um ano, com a popularidade do primeiro-ministro no patamar mais baixo da legislatura.

 

A isto junta-se a contestação cada vez mais dura do funcionalismo público ao Executivo e a percepção geral de que os serviços essenciais estão numa situação de ruptura.

 

Mais do que tudo, haverá talvez, ainda, a constatação de que o primeiro-ministro, afinal, é mais "habilidoso" do que "hábil", e que a existência de uma política alternativa à dos anos da austeridade foi uma notícia claramente exagerada.

 

O que muitos portugueses já terão percebido é que a chamada "reposição de rendimentos" não foi essencialmente financiada pelo crescimento económico nem facilitada por um cumprimento mais lento das metas do défice (pelo contrário, a consolidação foi mais rápida do que a prometida). A "reposição de rendimentos" foi, isso sim, compensada com aumentos alternativos da carga fiscal e um investimento muito menor do que o prometido nos serviços públicos.

 

É muito provável que estes dados tenham contribuído para a queda do PS nas sondagens. Mas lá está: essas sondagens só nos falam do dia de hoje. Numa situação política tão volátil, ainda para mais com a ideia de que o "voto útil" acabou, as previsões de resultados são mais um jogo de apostas do que análise política.  

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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