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Francisco Mendes da Silva - Advogado 04 de Dezembro de 2018 às 20:16

O jornalismo quer evitar a morte suicidando-se? 

O Presidente da República acha que se deve discutir o financiamento público do jornalismo privado, sugestão a que um número não surpreendente de jornalistas e gestores dos media já se vieram agarrar.

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Este debate é a ilustração perfeita de como o espírito iliberal se instala nas sociedades democráticas. Não é porque de um momento para o outro há hordas desconhecidas de selvagens que resolvem sair das cavernas. O que acontece é exatamente aquilo que aqui vemos: a existência de problemas reais, a incapacidade crónica de os resolver e um momento de desespero em que até as pessoas sensatas começam a falar de soluções extravagantes, num processo de paulatina aceitação e normalização de ideias que antes eram linhas vermelhas inultrapassáveis.

 

O que o jornalismo vende é independência e confiança. Um órgão de comunicação que acha que o poder político lhe deve garantir a sobrevivência dificilmente merecerá que o público nele confie como um verdadeiro contrapoder. Mais: não terá legitimidade para o combate, tão importante em Portugal, de denunciar a captura do interesse público pelos setores protegidos no nosso capitalismo encostado ao Estado.

 

De resto, enquanto andarmos anestesiados com a quimera do financiamento público, não haverá disponibilidade para resolver os problemas reais do jornalismo. O que passa, antes de mais, por perceber que não existe propriamente uma crise de interesse no jornalismo. Nunca como hoje houve tanto consumo de informação. O que há é uma crise dos modelos de negócio que suportam as empresas de comunicação. Não sou o primeiro a dizê-lo, mas pelos vistos é necessário ir repetindo o óbvio.

 

É verdade que a digitalização da informação, uma das dimensões da globalização, pôs o jornalismo português perante um desafio praticamente impossível. Antigamente achava-se que quanto maior fosse a instrução das pessoas, maior seria o interesse no jornalismo. Essa é uma premissa que continua válida. Sucede, porém, que a digitalização fez com que o interesse quotidiano de quem mais consome informação passasse a ser distribuído pela atualidade de todo o mundo - e, logicamente, pelos meios de todo o mundo. É um processo que afeta de modo particularmente negativo o jornalismo de sociedades modernas, mas periféricas, como Portugal (à semelhança, aliás, do que acontece com a cultura e o entretenimento).

 

Mas na reação à digitalização cometeram-se também erros próprios bastante graves. Foi o caso da estratégia peregrina de tentar combater a internet com as armas da própria internet. Os media tradicionais quiseram mimetizar os blogues e depois as redes sociais, numa banalização do seu papel com consequências desastrosas.

 

A tendência deveria ter sido, pelo contrário, a de - como se diz agora - acrescentar valor. Em vez da obsessão com o imediatismo, os conteúdos curtos, a leitura fácil e a ligeireza das abordagens (em que a internet é imbatível), o jornalismo deveria ter percebido que o seu caminho era outro: o da investigação, da especialização, da densidade, da capacidade de recuar do dia a dia para melhor explicar os dias que correm.

 

Seja como for, suspeito de que a sugestão de Marcelo acabará por fazer o seu caminho. Seria estranho que todos os políticos resistissem à tentação de cair nas boas graças dos jornalistas oferecendo-lhes o mealheiro dos contribuintes. É dar tempo ao tempo.

 

Aliás, nestes temas revestidos com a cobertura açucarada da bondade civilizacional, basta um só político com responsabilidade iniciar a discussão, que depois ninguém desejará ficar para trás. O Presidente já fez o seu trabalho. Admito que se siga o Governo, através da ministra da Cultura, ansiosa por regressar ao bom convívio da imprensa que desconsiderou em Guadalajara.

 

Mais tarde ou mais cedo teremos do PS um "pacote legislativo" salvífico, para garantir a democracia e a liberdade em Portugal nos próximos cem anos. Um conjunto mal-amanhado de subsídios insuficientes e benefícios fiscais irrelevantes, a que outros partidos retorquirão com as suas próprias recomendações acerca de como melhor aninhar a imprensa livre no regaço do Estado. Será um exercício deprimente, o do jornalismo ajoelhado e de mão estendida.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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