Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 09 de outubro de 2019 às 09:10

O maior inimigo da direita é o sectarismo

O caleidoscópio parlamentar veio para ficar. E, no nosso sistema, terá vantagem quem se souber unir. Tudo o resto poderá dar bons discursos, mas será um jogo de soma nula.

Sempre que perde eleições, a direita portuguesa queixa-se dos enviesamentos do "sistema", seja a cultura mediática de esquerda seja o eleitorado dependente do Estado, que em princípio está mais disponível para votar em quem privilegia a distribuição - e não a criação - de riqueza. Mas a direita passa tanto tempo a lamentar esse fado que raramente presta atenção aos enviesamentos que lhe são favoráveis.

 

Desde logo, há a dispersão territorial do voto: a direita sempre se espalhou mais do que a esquerda por todo o país, especialmente a norte do Tejo, que elege muito mais deputados do que o Sul. Isto é, a direita sempre teve mais força em mais distritos com mais peso.

 

Em segundo lugar, é bom lembrar que, em muitos regimes democráticos, os sistemas eleitorais são um dos factores mais determinantes dos resultados das eleições. É que uma coisa é o número de votos, outra é a transformação dos votos em mandatos. Em Portugal, o sistema proporcional e o método de Hondt favorecem as coligações. A esquerda até pode ter 60% do eleitorado; se a direita tiver 40%, poderá ter maioria absoluta de deputados.

 

É claro que, para isso, a direita tem de concorrer unida às eleições. Mas a naturalidade com que a direita portuguesa se pode entender em acordos pré-eleitorais (coisa que nunca aconteceu à esquerda) é outra das vantagens estruturais do campo não socialista. O PSD e o CDS - e, já agora, a Iniciativa Liberal - têm diferenças ideológicas importantes, mas estão longe de ser inconciliáveis.

 

Depois da derrota de 2015, era previsível - talvez mesmo inevitável - que o PSD e o CDS sentissem necessidade de reconquistar os seus eleitorados, sozinhos. O resultado foi o que foi: nova derrota, perda de votos e, ainda por cima, maior dispersão partidária. Agora o caminho tem de ser o contrário. Nenhum partido deveria estar a pensar a sua estratégia sem perceber que uma parte fundamental dessa estratégia é saber com que é que pode contribuir para uma plataforma comum alternativa ao governo do PS.

 

Duvido de que o PSD esteja a pensar nisso. A estratégia de Rui Rio parece ser a de esperar que o abrandamento da economia obrigue Costa a nova austeridade e esta lhe destrua a popularidade. Curiosamente, é a mesma estratégia de Passos, que correu tão bem. Rio pode esperar sentado: a economia até pode vir a arrefecer, mas as taxas de juro manter-nos-ão à tona. Ninguém no BCE, nem em geral na "Europa", quer outra crise com a mínima ressonância da que nos levou à pré-bancarrota. Seja como for, enquanto aguarda pelo Diabo, Rio quererá que não o confundam com a terrível direita, porque acha que só permanece na linha de sucessão se parecer um sucedâneo de Costa. Provavelmente não estará disponível para conversar com mais ninguém.

 

Quanto ao CDS, o seu peso relativo perante o PSD diminuiu tanto, particularmente em número de deputados, que imagino que haja quem tenha a tentação de seguir um caminho de diferenciação clara, com receio da diluição, apostando na conquista das franjas de eleitores mais afastadas do centro. A Iniciativa Liberal, que já pôs os pés na AR, também poderá pensar que por agora o seu caminho é corroer os partidos tradicionais, em vez de se entender com eles.

 

Hoje o maior risco para a direita é o sectarismo estratégico, que conduzirá ao entrincheiramento ideológico, que por sua vez tornará cada vez mais difícil os entendimentos no futuro. A primeira preocupação dos partidos da direita, neste momento, devia ser a de evitar esse círculo vicioso absolutamente estéril.

 

Não sou dos que acham que o novo Parlamento, com novos partidos, seja apenas o fruto de uma crise passageira das forças tradicionais. A desagregação do voto, à direita e à esquerda, corresponde à profunda segmentação dos fluxos de informação e dos hábitos culturais e sociais gerada pela democratização da tecnologia das comunicações. Quem acha que, neste contexto, o Parlamento poderia ficar basicamente igual ao que era no tempo da televisão a preto e branco está completamente enganado.

 

O caleidoscópio parlamentar veio para ficar. E, no nosso sistema, terá vantagem quem se souber unir. Tudo o resto poderá dar bons discursos, mas será um jogo de soma nula.  

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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