Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 16 de agosto de 2016 às 20:04

O PS já não vai à China

Se este processo de definhamento do PS na última década fosse só um problema dos socialistas, viveríamos bem com ele. Mas não é. Tal fragilização levou o PS a ficar dependente da extrema-esquerda e a abdicar da sua vocação reformista.

No comentário político, a tese da "rentrée" é a seguinte: a esquerda vive em lua-de-mel e a direita, limitando-se a avisar que a experiência de governo em curso levará de novo o país ao abismo, confia numa ladainha melancólica que ninguém está disponível para ouvir e que remeterá o PSD e o CDS, por muitos anos, à aridez da oposição.

 

Este simplismo, embora sedutor, não só não apaga a desastrosa incompetência do Governo (e é preciso que alguém a vá lembrando) como serve para maquilhar um outro problema, mais grave: o declínio do PS enquanto força reformista central do sistema político. É que se as eventuais dificuldades eleitorais da direita são só, para já, um problema da direita, a fragilidade do PS, essa, é um problema do regime. Porquê? Lembremos um pouco da História.

 

Em 2004, Sócrates chegou à liderança do PS como herdeiro do centrismo do partido, com 80% dos votos contra a ala esquerda de Manuel Alegre e João Soares. "Sempre fui a merda de um moderado", havia mais tarde de dizer numa entrevista a Clara Ferreira Alves, no Expresso, com a sua já lendária solenidade de taberna. Em 2005, essa imagem de moderação política deu ao PS a primeira maioria absoluta (45,03%, 121 deputados), que começou com ímpeto reformista, contra os sindicatos da Educação ou os dogmas esquerdistas na Segurança Social. Em 2006, o comentador Pedro Adão e Silva publicou no Diário Económico um artigo que ainda hoje considero um dos mais representativos do espírito desse tempo ("Sócrates vai à China", disponível em http://pedroadaoesilva.blogspot.pt): a tese era a de que a situação do país reclamava um conjunto de reformas impopulares que só um governo de esquerda teria condições políticas para implementar. No fundo, só um governo de esquerda, por não ser de direita, podia convencer a esquerda a aceitar medidas que de outro modo seriam vistas como "de direita". O artigo recordava a ida de Nixon à China, em 1972, para iniciar conversas tendentes ao fim da Guerra Fria. O argumento "Nixon goes to China", escrevia Adão e Silva, "aplica-se a opções baseadas no realismo e nas quais a capacidade política dos actores aumenta por força da distância face ao seu lugar de origem". E, de facto, alguma direita chegou a adorar o Sócrates do início. O PS, enquanto charneira ideológica da pátria, tinha aí atingido o seu zénite.

 

Entretanto, a crise instalou-se e o PS mostrou não estar ideologicamente preparado para a enfrentar. Em 2009, perdeu a maioria absoluta (36,55%, 97 deputados) e em 2011, com a bancarrota, o poder (28,06%, 74 deputados). Em 2015, depois da governação da direita no período do resgate, a mais difícil de sempre, o PS conseguiu só o segundo lugar (com 32,38%, 86 deputados e vitórias em apenas sete dos 22 círculos eleitorais).

 

Se este processo de definhamento do PS na última década fosse só um problema dos socialistas, viveríamos bem com ele. Mas não é. Tal fragilização levou o PS a ficar dependente da extrema-esquerda e a abdicar da sua vocação reformista. Não há melhor ilustração dessa demissão do que o actual Governo, proibido não só da mínima afinação à sua política económica, que já viu estar morta e enterrada, como de sequer mexer no resto.

 

Tudo isto conduziu a uma nova conformação do regime em que o bloqueio político parece vir a ser, no futuro próximo, a regra: os entendimentos ao centro são impossíveis; à esquerda facilitaram-se as maiorias, mas inviabilizou-se o reformismo; à direita há mais vontade reformista do que facilidade em formar governo.

 

Advogado

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