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Francisco Mendes da Silva 26 de Maio de 2020 às 20:34

Quando os corajosos são os mais cobardes

Nisso, como em tanta outra coisa, a “nova direita” é igual à “esquerda hegemónica”, com a sua táctica clássica de desvalorizar as ideias de que não gosta com base nas alegadas motivações obscuras dos respectivos autores.

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No fim-de-semana li dois artigos que aludiam à “teoria da espiral de silêncio”. No primeiro, Luis Aguiar-Conraria (“Uma espiral de silêncio”, Expresso, 23.05.2020) resume-a assim: “Quem se sente em minoria tem tendência a manter-se em silêncio, deixando o espaço público entregue à opinião maioritária (reforçando a ideia de que se está mesmo em minoria, o que alimenta o silêncio, etc.)”.

Aguiar-Conraria agradece a todos os que, certos ou errados, têm colocado em causa as ideias maioritárias sobre a covid-19, quer os pressupostos científicos da propagação da doença quer as decisões políticas de reacção à pandemia. Subscrevo-o inteiramente.

Mas é preciso chamar a atenção para uma diferença fundamental: uma coisa são as pessoas que assumem realmente uma posição minoritária sobre um assunto concreto, com factos e argumentos; outra, totalmente distinta, são aquelas que se limitam a anunciar que foram colocadas no mundo com a missão de combater a espiral de silêncio, para o que são dotadas de uma coragem intelectual e moral que os restantes seres humanos não têm a sorte de alcançar.

Para as pessoas que se encaixam na primeira hipótese, a espiral de silêncio é um obstáculo natural a que o mundo disponha de mais informação, mais debate e mais desenvolvimento. Vencê-la não é um fim em si mesmo, mas apenas um passo para a tomada de melhores decisões colectivas. O inimigo não são as pessoas que se remetem ao silêncio: o inimigo é o desconhecimento.

Para as pessoas que se encaixam na segunda hipótese, a espiral de silêncio é, ela mesmo, o inimigo. Ela e os que supostamente se silenciam, com a sua cobardia no espaço público, a sua ambiguidade moral e a sua fraqueza intelectual. Combater os “culpados” do silêncio – essa erva daninha da espécie humana – é o objectivo final, para que na Terra floresçam apenas aqueles que, impávidos perante o rolo compressor do pensamento dominante, são por ora os únicos capazes de “dizer o que toda a gente pensa mas não tem coragem de dizer”. Para estes heróis, o desconhecimento não é o inimigo, porque a sabedoria já eles a têm, inteira e transparente.

Ou seja: os primeiros lutam contra a espiral de silêncio porque têm a noção da sua imensa inferioridade perante a vastidão do que se desconhece sobre o funcionamento do mundo; os segundos fazem esse combate porque estão convencidos da sua inultrapassável superioridade moral e intelectual.

Gabriel Mithá Ribeiro escreveu um longo artigo que é um bom exemplar desta segunda forma de pensar (“André Ventura: votaria nele?”, Observador, 24.05.2020). Nele defende André Ventura “por ter iniciado o combate à espiral do silêncio” contra “os moderados” da “direita não-combativa”, “coveira da democracia” e “alma gémea da esquerda hegemónica”.

É uma defesa tão apaixonada que Mithá Ribeiro até se esquece de deixar qualquer argumento racional para defender uma ideia que seja, das tais da “direita combativa”, em que Ventura tenha confrontado o morno consenso. A segregação de ciganos? A prisão perpétua? A AR só com cem deputados? A castração química?

O que demonstra que muitas vezes a coragem é, afinal, uma enorme cobardia mal disfarçada de arrogância. A pessoas como Mithá Ribeiro nunca passa pela cabeça que talvez os “moderados” não sejam determinados pelo medo, e que, bem ou mal, talvez pensem mesmo aquilo que dizem. Não lhes passa pela cabeça, aliás, que a “ambiguidade” possa ser simplesmente o reconhecimento de que a própria realidade é ambígua, que a dúvida faz parte do processo do conhecimento, que é exactamente por isso que temos a democracia, o pluralismo, os parlamentos, a imprensa livre, e que a recusa em enfrentar a complexidade do mundo é que é uma cobardia moral e intelectual.

O que, pelo contrário, nunca deixa de lhes passar pela cabeça é desqualificar sempre à partida os adversários. Nisso, como em tanta outra coisa, a “nova direita” é igual à “esquerda hegemónica”, com a sua táctica clássica de desvalorizar as ideias de que não gosta com base nas alegadas motivações obscuras dos respectivos autores.

É uma boa forma de ganhar todos os debates, porque nem sequer temos de entrar em qualquer discussão. Haverá cobardia maior do que esta? Não me parece.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico


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