Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 25 de abril de 2017 às 18:35

Reflexões sobre a revolução em França

Quem (ainda) acredita na ordem liberal do pós-II Guerra, seja mais conservador ou progressista, não tem de se acobardar e imitar os extremistas para vencer eleições. "En garde!"

1. Todos os principais candidatos à primeira volta das eleições francesas utilizaram em seu favor, mais ou menos a propósito, a referência ao general De Gaulle. Curiosidade? Acaso? Nada disso. A citação do fundador da Quinta República é um ritual de validação porque a mitologia constitucional da Presidência da República foi construída à sua imagem e, mais do que isso, porque há muito não mora no Eliseu quem respeite essa imagem.

 

De Gaulle foi um líder poderoso, majestático, que parecia impavidamente resoluto na sua demanda pela grandeza de França enquanto planava acima da política corrente. Depois dele, só Mitterand manteve a aura. Em Hollande, Sarkozy e Chirac, os franceses acabaram por ver apenas três líderes de facção, peões das elites partidárias incapazes e moralmente corruptas.

 

A principal história em torno de Emmanuel Macron é precisamente a de que o seu movimento, Em Marche!, promete a reconstrução da Quinta República a partir da força e independência do vértice presidencial. Com essa plataforma abrangente e equidistante, e se conseguir amarrar um Parlamento fraccionado à previsível clareza da sua legitimidade eleitoral, estará numa posição invejável para o conseguir. Se o conseguirá ou não, essa é outra história.

 

2. Um dos expedientes que os partidos tradicionais da democracia francesa utilizam para se aproximarem dos eleitores é a designação dos candidatos presidenciais através de eleições primárias. Pressupõe-se que esse método, por oposição ao da indicação pelas cúpulas dirigentes, assegura escolhas mais representativas do sentimento popular.

 

A primeira volta das eleições mostrou os limites deste raciocínio. A designação de um candidato pelos eleitores mais fiéis, empenhados e aguerridos (militantes inscritos ou não) pode redundar naturalmente em escolhas puramente identitárias, que fecham e afastam mais do que abrem e aproximam. Republicanos e socialistas, ao escolherem Fillon e Hamon (em vez de Juppé e Valls, por exemplo), provaram o seu próprio veneno. Que façam bom proveito. Os próximos serão os trabalhistas britânicos de Jeremy Corbyn.

 

3. Depois de Tsipras, do Brexit e de Trump, achava-se que a fronda antiliberal da internacional populista, revolucionária ou reaccionária seria imparável.

 

Conforme aqui tentei argumentar há cerca de um mês ("De que falamos quando falamos da ascensão do populismo?", 21 de Março), as eleições holandesas indiciaram que as pessoas estão dispostas a punir os políticos "do costume", mas não, necessariamente, a ideologia "do costume". O que é preciso é que as alternativas ao "sistema" não sejam um monopólio dos extremistas.

 

Na Holanda, os partidos tradicionais perderam votos para outros partidos moderados. Em França, a tendência prossegue: o mais provável futuro Presidente é o epítome do "sistema", com um percurso político e profissional típico das elites e um programa que, ideologicamente, é uma síntese actualizada das últimas décadas. Se Macron vencer a eleição, será porque, tendo celebremente rompido com o Partido Socialista, se desintoxicou do partido do sistema - não porque se desintoxicou da ideologia do sistema.

 

Esta tendência tem os seus perigos, desde logo por incentivar o esboroamento dos partidos estruturantes das democracias europeias. No imediato, porém, há um aviso que funciona com um alívio: quem (ainda) acredita na ordem liberal do pós-II Guerra, seja mais conservador ou progressista, não tem de se acobardar e imitar os extremistas para vencer eleições. "En garde!"

 

Advogado

pub

Marketing Automation certified by E-GOI