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Francisco Mendes da Silva 08 de Maio de 2018 às 22:03

Salve-se quem puder (principalmente o PS)

De repente, a sacrossanta presunção de inocência deixou de valer para José Sócrates, cuja tropa bate em retirada desenfreada para longe da repelente personagem, deixada a sangrar, só e desamparada, no campo de batalha.

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Há no ar um espírito de salve-se quem puder. Mas importa, acima de tudo, salvar o PS. É preciso envolver António Costa num cordão sanitário, dizendo que esteve impecável durante estes anos, ao evitar a politização do processo.

 

É extraordinário: o país confronta-se com indícios seríssimos de que o seu governo, através das fileiras do PS, albergou um dia a mais perigosa e sofisticada criminalidade económica, mas o líder do partido acha que o que lhe é exigido é o silêncio. Se pensa, como já disse de fugida no Canadá, que o que hoje se sabe mina a confiança das pessoas nas instituições democráticas, não acha que o PS nos deve um sinal público de que se perguntará como tudo isso foi possível? Não percebe que, perante a gravidade do que já foi reconhecido, todo o silêncio é cúmplice?

 

Se calhar percebe. Mas Costa e a direcção do PS comportam-se assim, assobiando para o lado, porque outros, dentro do partido e nas suas redondezas, andaram por eles, de mão dada com Sócrates, a fazer o trabalho sujo de politizar as suspeitas, de deslegitimar a imprensa e de descredibilizar a Justiça.

 

Não estou a falar das atitudes normais da amizade. Compreendo o instinto gregário do companheirismo partidário. Tenho familiares e amigos que são militantes ou apoiantes do PS, e que também seguraram o andor de Sócrates. Mas é preciso lembrar que a estratégia de muitos dos que o defendiam era quase sempre o ataque constante aos que o questionavam. Sócrates era Dreyfus, os seus defensores eram Zola, os críticos eram os conspiradores anti-semitas, que inventavam factos e fabricavam provas.

 

Foi uma estratégia completamente imune às evidências, que sobreviveu muito para além da produção de uma acusação formal. Tudo servia para absolver Sócrates à partida. Nenhum lapso dos jornais ou da investigação era apenas um lapso: era a demonstração, transitada em julgado, de que Sócrates era vítima de uma tenebrosa conspiração de políticos, jornalistas e magistrados da "direita". Às vezes dava a sensação de que, se o próprio chamasse algumas pessoas à parte para lhes confessar os crimes, essas mesmas pessoas viriam a público defender a inimputabilidade do homem.

 

O que é que sucedeu entretanto? Sucedeu que uma peça da SIC, com a vantagem da difusão simplificada e em massa da televisão, expôs ao ridículo a tese de que não existiam indícios sólidos contra Sócrates. Muita gente percebeu que insistir nessa tese era o suicídio moral, político e intelectual. Ainda bem.

 

Só é pena que se continue a insistir na desresponsabilização do PS, desta vez através da estratégia de diluição da culpa. É que agora já vale misturar tudo: acusações formais com rumores, casos arquivados com casos julgados, Sócrates com BPN, Pinho com sobreiros, Vara com submarinos. Se há culpa, a culpa é colectiva e deve ser expiada por todos. Estamos conversados sobre o respeito pela presunção da inocência e o Estado de Direito. Afinal não era escrúpulo: era só propaganda.

 

O caso Sócrates presta-se a muitas lições. A principal, para já, e quando a classe política dá sinais de que voltará à carga com pacotes anticorrupção, é a de que nenhuma lei é tão forte quanto a lei de ferro da cegueira intelectual e da clubite política. E que o melhor é todos aprendermos com os erros - os próprios e os dos outros.

 

Advogado

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