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Francisco Mendes da Silva 22 de Maio de 2018 às 21:11

Seria moralmente proibido contratar os jogadores do Sporting?

O objectivo de um dirigente é chegar ao ponto em que o seu clube vence sempre, num campeonato consigo próprio, e em que a "competição" é uma farsa e os "adversários" meros figurantes.

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Nada demonstra tão bem que o futebol português é um mundo à parte como a enorme contradição que existe entre a rapidez com que a modalidade se foi transformando num negócio complexo e sofisticado, e a letargia com que os clubes se foram mantendo numa galáxia paralela, conduzidos por líderes típicos do antigamente, atávicos e tribais. É uma imunidade à evolução da realidade que não se vê em nenhum outro negócio. 

 

O sucesso de um clube de futebol profissional depende de duas variáveis. Em primeiro lugar, da sua própria capacidade de vencer partidas e competições, e com isso atrair clientes (os adeptos) e gerar receitas. Em segundo lugar, um clube depende também da boa capacidade dos seus adversários e, em geral, das condições de competitividade dos campeonatos em que participa. É por isso que nas competições desportivas com mais sucesso global (da Premier League à NBA) os clubes sabem que cuidar do negócio de todos é cuidar do seu próprio negócio. Nenhuma competição sobrevive sem um módico de entusiasmo que só é dado pela imprevisibilidade dos resultados, nem sem a reputação que atrai os financiadores e os patrocinadores.

 

No futebol português, os clubes só se preocupam com a primeira variável. O objectivo de um dirigente é chegar ao ponto em que o seu clube vence sempre, num campeonato consigo próprio, e em que a "competição" é uma farsa e os "adversários" meros figurantes. Aos clubes portugueses, principalmente aos "três grandes", não basta ganhar em campo: é preciso tentar esmagar os outros, com propaganda, insinuações e violência verbal. É uma estratégia absurda, que talvez venda muitas camisolas no imediato, mas que, no fim da linha, acabará por destruir o interesse na modalidade. 

 

Há dias surgiu a notícia de que Pinto da Costa terá ligado a Bruno de Carvalho para lhe assegurar de que o Porto não se aproveitaria da crise no Sporting para contratar alguns dos jogadores que, diz-se, quererão rescindir com o clube de Alvalade. Pinto da Costa foi elogiado porque, em contraciclo com o ambiente de efervescência bélica, ofereceu ao Sporting uma espécie de pacto de não-agressão. Admito que, dado esse ambiente, a abstenção de Porto e Benfica talvez seja pelo melhor. Mas a própria ideia de que é preciso um pacto de não-agressão mostra o quão doentio é o fenómeno do futebol profissional em Portugal. Só é preciso um pacto de não-agressão porque Porto, Benfica e Sporting são inimigos - e não simples rivais.

 

O cuidado de Pinto da Costa com o Sporting perceber-se-ia se o clube tivesse sofrido uma qualquer catástrofe natural. Mas não foi nada disso que aconteceu. O Sporting está a sofrer as consequências de um processo conduzido de forma voluntária e em uníssono por toda a instituição. Um processo liderado pelo presidente, é certo, mas no qual este foi acompanhado pelos órgãos do clube e pelos sócios e adeptos, que apoiaram activa e esmagadoramente a liderança.

 

Convém, por isso, evitar equívocos morais: a crise do Sporting é o resultado de uma dinâmica puramente empresarial e de decisões de gestão próprias. Se os seus jogadores se considerassem agentes livres, e se outros clubes os quisessem contratar (mesmo com os riscos jurídicos associados), o que teríamos era apenas o mercado a funcionar. Nada mais.

 

A ideia de que os clubes rivais do Sporting estão moralmente proibidos de ir buscar os seus jogadores não é, por isso, um assomo de civilização. É, muito pelo contrário, a ilustração da pré-história em que vive o negócio do futebol português.

 

Advogado

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