Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 25 de fevereiro de 2020 às 18:50

Vasco Pulido Valente: o estilo é a substância

Fala-se muito do estilo de VPV. Mas o seu estilo é, também, a sua substância. A substância não está só no que escrevia; está igualmente em como escrevia. O como VPV escrevia era todo um programa.

“Quem provoca as catástrofes? Os possessos de agitação, os insones, os artistas falhados que usaram coroa, sabre ou uniforme, e, mais do que eles todos, os optimistas, que esperam apoiados nas costas dos outros”.

E.M. Cioran, Silogismos da Amargura.

1. Em 1979, Vasco Pulido Valente publicou “O País das Maravilhas”, colectânea dos textos que vinha escrevendo na imprensa desde 1974. O livro tem por epígrafe um excerto de “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” em que o Gato de Cheshire explica a Alice que naquele país todos são loucos. O Chapeleiro, a Lebre, todos são loucos – incluindo Alice, só pelo facto de ali estar.

Quatro décadas depois, a epígrafe da coluna semanal de VPV no Observador era um verso de “September 1, 1939” (“…hopes expire/ Of a low dishonest decade…”), poema de W.H Auden sobre a “loucura” que inevitavelmente levara o mundo à II Guerra (“Accurate scholarship can/ Unearth the whole offence/ From Luther until now/ That has driven a culture mad”).

Leio VPV sempre com a ideia de que é nesta ideia de “loucura” que está a chave para compreender o seu pensamento, o seu génio – e o seu estilo. VPV sabia que não há clarividência suficiente para compreendermos a realidade que nos rodeia sem a noção de que ela é em boa parte determinada por uma insensatez ou alucinação insindicáveis, de que todos participamos e que só é possível aceitar – e respeitar – com um módico fundamental de ironia. Ou de sarcasmo. Ou de cinismo.

VPV era uma espinha encravada na nossa cultura afrancesada dos grandes planos, do optimismo antropológico triunfal, das elucubrações racionalistas. A história trágica das utopias não lhe sugeria qualquer esperança ou euforia, muito menos a frágil e sinuosa natureza humana. VPV desconfiava tanto das ideias abstractas quanto dos homens concretos. Conhecia-os demasiado bem para não ver neles as suas facetas amorais e absurdas – a tal loucura, omnipresente e imbatível, que tende por desígnio para o esmagamento da liberdade dos povos e dos indivíduos.

Fala-se muito do estilo de VPV. Mas o seu estilo é, também, a sua substância. A substância não está só no que escrevia; está igualmente em como escrevia. O como VPV escrevia era todo um programa.

Há as célebres frases curtas, cirúrgicas e inclementes, que chocaram de frente com o Portugal pretensioso dos parágrafos-maratona de perder o fôlego. E isso não era apenas uma questão estética. A forma como VPV escrevia revelava o seu apego à concisão, uma virtude intelectual inglesa que é irmã da moderação, da prudência empirista, da humildade anti-utópica. Aliás, VPV foi dos poucos que, no séc. XX, se libertaram da anglofobia regimental da intelectualidade pátria (com Pessoa, Sena ou Cunha Rego).

Mas há, acima de tudo, aquele realismo prudente perante o absurdo. O que muitos viam como sobranceria e pessimismo era, afinal, uma absoluta ausência de perplexidade, exercitada com esmero e militância, não como um método oblíquo e displicente de ver a realidade, mas como a forma mais séria, directa e eficaz de a conseguirmos navegar.

 

VPV era uma espinha encravada na nossa cultura afrancesada dos grandes planos, do optimismo antropológico triunfal, das elucubrações racionalistas.



2. Nas últimas décadas, VPV esteve conotado com a direita, e foi essencialmente a direita a celebrá-lo na hora da sua morte. Mas em Portugal, nação colectivista, não era fácil catalogar este irremediável liberal. Sendo “de direita” ou não, VPV estava longe de ser um espécimen típico “da direita” portuguesa, com a qual não partilhava a escala de valores e a herança intelectual (a inspiração católica ou a atracção pela figura do “chefe”). Dela só se aproximou quando sentiu a liberdade a subir na hierarquia (como na AD ou n’O Independente).

VPV importava-se com a liberdade e importunava-se para a defender. Esteve à esquerda contra o Estado Novo e com Eanes e Soares para desmilitarizar a democracia. Aí venceu. Depois esteve contra todos os que quiseram impor a sua supremacia através da colonização do Estado, para criação de uma classe média artificial, funcionária e dependente do poder. Disto saiu previsivelmente derrotado. Mas deu luta como ninguém. Obrigado.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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