Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 04 de abril de 2017 às 21:07

VPV no Reino da Traulitânia

No Observador, Vasco Pulido Valente atira-se aos "promotores do consenso", que, por causa "dos acanhados limites da sua inteligência e da sua quase completa incultura histórica", não percebem a "figura triste e nociva" que andam a fazer.

"Accurate scholarship can/ Unearth the whole offence/ From Luther until now/ That has driven a culture mad (…) I and the public know/ What all schoolchildren learn,/ Those to whom evil is done/ Do evil in return." 


W.H. Auden

 

No Observador, Vasco Pulido Valente atira-se aos "promotores do consenso", que, por causa "dos acanhados limites da sua inteligência e da sua quase completa incultura histórica", não percebem a "figura triste e nociva" que andam a fazer. O "consenso", diz-nos VPV, "conduziu invariavelmente às piores catástrofes". Como é hábito, a invectiva é acompanhada de uma daquelas prédicas sobre o Portugal do século XIX em que o autor é o especialista insuperável.

 

Há um famoso ensaio, chamado "O Ouriço e a Raposa", em que Isaiah Berlin, inspirado num adágio atribuído a Arquíloco, divide os pensadores entre ouriços (os que "sabem uma coisa muito importante") e raposas (os que "sabem muitas coisas"). VPV é um ouriço: não há praticamente nada que não ache que tem origem ou ilustração nas desventuras do século XIX português.

 

No caso, porém, essa História ilumina-nos muito pouco. Desde logo, para sabermos se o perigo de que VPV fala é real ou imaginário conviria saber quem são e o que andam concretamente a fazer ou a dizer esses tais "promotores do consenso", "que hoje vão do Presidente da República ao mais pequeno oportunista do CDS". O problema é que, além do nomeado, estamos na penumbra sobre quem são as demais personagens que na íngreme escada da importância social se vão sucedendo por aí nos apelos a uma união política informe e pestilenta.

 

VPV poderia ter-nos concedido aqui o mesmo benefício da ilustração que utilizou nos muitos parágrafos sobre o passado. É pena que não o tenha feito: ao homem médio, acanhado nos limites da sua inteligência e da sua quase completa incultura histórica, aquilo que é permitido ver é apenas uma terra dilacerada de políticos inconciliáveis, que cavaram trincheiras fundas nos anos de chumbo da troika e por lá permaneceram após a criação, artificial e vingativa, da "geringonça". Neste horizonte de desolação, não parece que uns esparsos apelos aos entendimentos sejam ameaça ao que quer que seja.

 

Uma coisa é achar que o PS merece uma oposição frontal e que não tem legitimidade para pedir ajuda à direita, nem esta para lha dar, quando falha o auxílio da esquerda que jurou apoiar a governação. Eu próprio já aqui o disse, por diversos pretextos e ocasiões. Outra coisa é julgar que a existência de quem privilegia a moderação, mesmo no contexto dessa oposição frontal, é uma das causas da decadência deste povo peninsular.

 

VPV prefere que a direita evite contactos com "o outro lado", públicos ou privados, e faça da política um pugilato implacável e infértil, retribuindo à esquerda o mal que esta anteriormente lhe impôs. Quem sugerir um pouco mais de elevação é obviamente um "oportunista" atraído pelo poder. Imagino o que dirá este VPV do VPV clássico - o genial cronista de todos os salões, o homem para todas as estações, intelectual orgânico da AD, estratega de Soares, deputado de Nogueira.

Se não estivesse tão concentrado a olhar para trás, talvez VPV percebesse a evidência do presente: quem hoje é mais responsável pelo terrível consenso é a esquerda, que depois de anos a flagelar a "obsessão pelo défice" deitou a sua "alternativa" borda fora e chegou ao cúmulo do cinismo de celebrar, com cartazes na rua, o seu défice "para lá da troika". Se isto não é o consenso, não sei o que é o consenso.

 

Advogado

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