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Francisco Veloso 13 de Março de 2016 às 19:00

A indústria europeia contra-ataca na nuvem

Durante vários anos, a principal discussão da classe empresarial e política europeia relativamente à computação na nuvem ("cloud computing") era sobre proteção e segurança de dados, em particular o facto de os principais agentes neste mercado serem americanos, e dados confidenciais poderem estar a atravessar o Atlântico.

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Esta perspetiva começou a mudar no último ano, inicialmente de forma tímida, com iniciativas dominadas por empresas americanas e ainda dentro da lógica de salvaguarda de dados. Um exemplo é a parceria entre a Microsoft e a Deutsche Telekom para criar servidores partilhados na Alemanha.

 

Mas, na passada 4.ª feira, a indústria europeia entrou em modo de contra-ataque. A Bosch anunciou que ia lançar uma rede de computação na nuvem. Com esta iniciativa, a Bosch irá enfrentar rivais de tecnologia norte-americanas bem estabelecidos nestas áreas de computação na nuvem, como sejam a Amazon, a Google ou a IBM. Esta "nuvem" da Bosch estará estabelecida na Alemanha, procurando dar resposta a preocupações europeias de proteção de dados, e podendo assim atrair clientes que têm dúvidas sobre a segurança de dados nos servidores nos EUA.

 

Poder-se-ia pensar que este é mais um exemplo de iniciativa de empresas e governos europeus que procuram copiar inovações e modelos de negócio desenvolvidos na América, tipicamente de forma tardia e falhada. Poderia fazer recordar discussões passadas sobre a criação de uma empresa europeia para competir com o motor de busca da Google. No entanto, um dos aspetos mais interessantes desta iniciativa da Bosch é precisamente o facto de o modelo de negócio e a lógica da plataforma de computação na nuvem que preconizam, capitalizar em torno da experiência e papel de liderança que a Bosch tem no desenvolvimento de produtos industriais. Em particular, a base de desenvolvimento para a nuvem da Bosch é a ligação de equipamentos entre si através da internet, qualquer coisa desde carros, até máquinas de lavar louça, televisões ou alarmes. A ideia é apostar na "Internet das Coisas" (IdC), com objetos que comunicam entre si, procurando afirmar a sua experiência em engenharia no domínio físico como vantagem para se afirmar no espaço virtual.

 

Esta abordagem da Bosch é parte de um crescente movimento de tradicionais empresas industriais europeias para passarem de fabricantes de equipamento a prestadores de serviços, utilizando dados gerados pelos seus equipamentos como base para o desenvolvimento de novos modelos de negócio. Neste percurso de construção da IdC tem sido mais noticiada a entrada das empresas de tecnologias de informação no espaço físico. A Google, com as suas iniciativas de carros sem condutor ou robôs inteligentes, é porventura o exemplo mais visível. Mas o caminho inverso, em que empresas de hardware adicionam software e serviços aos seus produtos, é um caminho igualmente importante, e para o qual muitas empresas estabelecidas na Europa podem ter uma vantagem. A corrida a este novo mundo está completamente aberta, pelo que é encorajador ver empresas europeias como a Bosch a fazer apostas claras e consistentes neste domínio.

 

Mas o anúncio da Bosch é também um alerta para todos os industriais e empreendedores relativamente a esta nova realidade de casas inteligentes, mobilidade interligada e indústria inteligente. Empresas, grandes ou pequenas, no espaço físico ou virtual, em Portugal ou na Alemanha, têm de ter estratégias e mecanismos para incorporar este novo mundo nas suas estratégias, produtos e serviços. A alternativa é a obsolescência e o declínio.

 

Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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