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Francisco Veloso 07 de Maio de 2017 às 18:00

As cidades inteligentes e o poder dos cidadãos

Na freguesia da Estrela, em Lisboa, qualquer cidadão que encontre um problema não urgente pode tirar uma fotografia com o seu telemóvel e reportar o mesmo através de uma ferramenta de georreferenciação, apelidada de forma natural como GeoEstrela.

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Esta ocorrência fica disponível para todos, incluindo as autoridades locais, que usam este sistema para, de forma imediata e interativa, conhecerem os problemas da zona e priorizarem as suas intervenções. Serve também como instrumento de responsabilização das próprias autoridades, no sentido em que ocorrências relevantes não resolvidas em tempo útil ganham mais visibilidade pública.

 

Este é apenas um exemplo do que está a acontecer hoje um pouco por todo o mundo. Cidadãos equipados com smartphones e sensores estão a revolucionar a forma como as cidades são pensadas e geridas. As iniciativas são inúmeras, crescentes, e cada vez mais diversas. Por exemplo, para identificar focos de poluição as autoridades podem instalar sensores por toda a cidade, que têm de ser mantidos, com custos enormes. Ou podemos usar uma fração desse dinheiro para fazer como em Louisville (EUA), em que organizações públicas e privadas forneceram mais de 1.000 inaladores para asmáticos equipados com sensores. Estes inaladores têm um GPS interno que recolhe dados sobre o tempo e posição de cada ativação do inalador e os transmite via smartphone. Os resultados foram tão impressionantes que levaram a que a cidade fizesse planos específicos para lidar com várias situações identificadas. Num dos locais, plantaram uma fila de árvores para separar uma estrada congestionada de uma zona residencial, o que resultou numa redução em 60% de particulados (PM) nessa zona.

 

A mobilidade urbana é outra área com grandes desenvolvimentos. Um excelente caso é a parceria entre a cidade de Boston e a Waze. Além de a informação da Waze complementar a informação da própria cidade, a parceria tem permitido fazer experiências de controlo de trânsito. Por exemplo, todos nós nos perguntamos se vale a pena ter um polícia em cruzamentos críticos, que a horas de ponta ficam bloqueados, para gerir o trânsito. A cidade fez a experiência com 20 destes cruzamentos críticos e mediu os resultados antes e depois com a ajuda do Waze. O resultado foi que não fazia diferença para a congestão geral da cidade, levando a que os recursos fossem orientados noutras direções.

 

Mais recentemente, alia-se a recolha de dados a elementos de inteligência artificial. A cidade de Chicago usou os dados históricos sobre falhas nas condições de higiene de restaurantes e cafés para desenvolver um algoritmo preditivo que guia as equipas na identificação de inspeções preventivas a serem realizadas, otimizando de forma significativa a utilização dos inspetores.

Poderia continuar e descrever situações tão diversas como a recolha de lixo irregular, a identificação de edifícios devolutos, ou a disponibilização de informação turística, entre muitos outros. Todas são ilustrativas de algo que podemos caracterizar como o emergir das cidades inteligentes. Constitui um universo de oportunidades de inovação na administração pública, e um conjunto fantástico de oportunidades de criação de valor para start-ups e empresas estabelecidas, que urge explorar.

 

Mas esta disrupção vai mais longe, já que constitui também um novo modo de interação e participação dos cidadãos na estratégia e gestão das cidades. Voltando à freguesia da Estrela, o GeoEstrela é a base para o EstrelaParticipa, uma versão 2.0 do orçamento participativo, em que os cidadãos usam a ferramenta de georreferenciação para apresentarem propostas de intervenção e melhoria na freguesia, e para comentar e votar nas propostas de outros. É o despontar de uma democracia muito mais direta, aberta e imediata, a que os cidadãos e os poderes públicos das cidades se terão de ajustar.

 

Diretor da Católica-Lisbon School of Business & Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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