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O poder dos acrónimos

Os prémios de risco da dívida pública entre os Estados-membros da área do euro diminuíram de forma significativa nos últimos dias, numa reacção positiva à discussão de iniciativas de suporte financeiro entre Estados-membros e aos planos de consolidação orçamental a...

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Os prémios de risco da dívida pública entre os Estados-membros da área do euro diminuíram de forma significativa nos últimos dias, numa reacção positiva à discussão de iniciativas de suporte financeiro entre Estados-membros e aos planos de consolidação orçamental a médio prazo anunciados por vários países, entre os quais Portugal. Não existe garantia de que as tensões nos mercados não regressem. O clima de confiança será, certamente, função da capacidade de concretização dos compromissos agora divulgados. Será uma avaliação contínua, ao longo dos próximos meses e anos, mas a sensibilidade à execução orçamental deverá ser mais intensa nos meses mais próximos. Proponho, nestas linhas, uma pequena reflexão sobre um tema paralelo mas relacionado: o poder dos acrónimos no comportamento dos mercados financeiros.

No nosso quotidiano deparamo--nos com uma miríade de siglas e acrónimos, que utilizamos para facilitar a comunicação, a memória de um conceito ou ideia. É inquestionável a sua utilidade: é muito mais fácil um treinador de uma equipa referir que a "a vitória faz parte do nosso ADN" do que "a vitória faz parte do nosso ácido desoxirribonucleico". O acrónimo é mais curto, entende-se facilmente, transmite-se facilmente e tem a vantagem adicional de poder ter outros sentidos, ou sentidos mais latos, que não só a representação de um conjunto de palavras mais extenso.

Os mercados financeiros são compostos por pessoas (mesmo quando são as máquinas a executar estratégias, têm subjacente um algoritmo que é definido por pessoas), pelo que a utilização de acrónimos também é uma prática relativamente usual. E alguns deles podem render bom dinheiro. Vários exemplos: o termo "Nifty Fifty", utilizado na década de 60 e 70, em representação das 50 empresas com maior volume de negociação na bolsa de Nova Iorque, ou nesta década o termo "B.R.I.C." (Brasil, Rússia, Índia China), iniciado pela Goldman Sachs para relevar o potencial de crescimento económico destes países.

O processo de integração europeia também tem proporcionado um terreno fértil para estes jogos de palavras. Na constituição da área do euro, os países do Sul foram rapidamente rotulados de "club med", um misto de tributo à geografia solarenga com a percepção de uma atitude displicente quanto ao desenvolvimento económico e competitividade. Nos últimos anos, nova alcunha, desta feita PIGS (Portugal, Itália ou Irlanda, Grécia e Espanha), em duas versões, com um ou dois "Is" conforme se alargava o conceito à Itália e Irlanda em conjunto. Escusado será enfatizar os segundos sentidos deste acrónimo (algumas instituições proibiram, inclusivamente, a sua utilização nos relatórios de "research"). Com as mesmas letras encontrar-se-iam, decerto, outras palavras.

Este conceito surgiu em 2008 e, curiosamente, nos meses seguintes até mereceu umas menções honrosas em alguns jornais de referência internacional, com títulos como "PIGS can fly". O termo foi repescado, e de forma veemente, nos últimos meses, associando-se à dificuldade de correcção dos défices públicos nestes países. Teve uma aceitação generalizada, assentava à desconfiança com as estatísticas e reporte dos défices entretanto ocorridas, e, nesse sentido, poderá ter actuado como um mecanismo amplificador da disciplina de mercado, ao ponto de alguns países terem decido investigar a existência de eventual concertação entre os meios de comunicação social e estratégias de investimento. Ainda não temos resultados dessas investigações. As únicas indicações até ao momento parecem ir no sentido de instituir restrições acrescidas a determinados tipos de estratégia de investimento ou à utilização de instrumentos financeiros, quer na área do euro, quer nos EUA.

Toda esta envolvente levanta uma questão interessante: como é que os mercados financeiros, percepcionados como analíticos por excelência, são tão permeáveis ao poder dos acrónimos? Uma resposta possível poderá residir nos estudos sobre comportamentos de massas nos mercados financeiros (numa tradução mais linear, os comportamentos de rebanho ou manada).
Num documento do FMI de 2001 sobre o tema, são apresentadas várias causas, que, de uma forma geral, estão relacionadas com problemas de acesso ou de disponibilidade de informação. O estudo aprofunda o caso da crise da Coreia de 1997, relatando a possibilidade de comportamentos desta natureza sobretudo por parte dos investidores não residentes (potencialmente detentores de menor informação) e em particular nos instrumentos financeiros com maior liquidez (maior facilidade de tradução do conceito numa estratégia de investimento).
Refere que, quando não fundamentados, estes comportamentos são tipicamente voláteis. Da mesma forma que apareceram, tendem a desaparecer, eventualmente porque o défice de informação vai sendo corrigido.

Diz-nos o documento que é muito complexo fazer este tipo de estudos e retirar conclusões firmes, sobretudo no que respeita à distinção entre um comportamento de massas não fundamentando e uma resposta conjunta à condição económica subjacente. Todavia, talvez se possam tecer algumas considerações. A primeira é que os mercados têm reacções de natureza também emotiva e é necessário entender esse enquadramento. A emoção distorcida enfrenta-se de forma mais eficaz com o factual e, nesse âmbito, a informação é central. A segunda é que os acrónimos não surgem do nada, tentam explorar uma ideia, o seu sucesso depende de quão ajustada essa ideia é de uma realidade subjacente. Nesse sentido fazem parte de um importante mecanismo de ajustamento que é a disciplina de mercado. O que nos conduz à última consideração, de que a forma mais eficaz de não incorrer no risco de ficar à mercê destes comportamentos é não conceder pretextos para a proliferação dos mesmos. É esta a responsabilidade que impende sobre a concretização dos planos agora submetidos: transformar o sentido do PIGS no outro acrónimo de igual fonia que representa Orgulho (Pride), Integridade, Coragem (Guts) e Serviço.


Gabinete de Estudos do Millennium BCP
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