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Helena Garrido Helenagarrido@negocios.pt 21 de Dezembro de 2010 às 11:16

2011, o ano em que tudo é possível

Há três anos que vivemos no universo do cisne negro.

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Em que o provado como falso se torna verdadeiro, em que o improvável se faz provável e o irrealista uma realidade. O ano de 2011 só será de cisnes brancos se estivermos preparados para todos os cisnes negros, o que é, em si, uma impossibilidade teórica.

Dizer que tudo pode acontecer e estar preparado para os piores cenários que se conseguem antecipar é a melhor estratégia neste ambiente de turbulência e imprevisibilidade. De 2007 até hoje já assistimos à falência de um grande banco, o Lehman Brothers, à nacionalização de instituições financeiras deste e do outro lado do Atlântico, à transformação do tigre irlandês num gato a precisar de ajuda e à impensável dúvida sobre a sobrevivência do euro. O improvável tem sido rei.

"O cisne negro" de Nassim Taleb defende que é impossível antecipar o futuro. Mas é possível reduzir o nevoeiro que cobre o futuro a partir do passado e do presente. E o que se pode hoje antever para 2011, como expõe o Negócios, é um tempo de violenta austeridade para os portugueses e de muito provável instabilidade social, política e financeira na Zona Euro, e até na União Europeia.

No meio da incerteza, há algumas certezas.

Todos os portugueses vão, em maior ou menor grau, levar menos dinheiro para casa e pagar tudo mais caro, incluindo a prestação da casa. O Banco Central Europeu, prevê-se neste momento, deverá subir as taxas de juro no último trimestre de 2011.

Com uma elevada probabilidade, podem chegar ainda mais medidas de austeridade. As vítimas podem ser as que ainda foram apenas parcialmente tocadas pelo aperto, como os reformados. Em Espanha e na Grécia, as pensões também foram cortadas, o que não aconteceu ainda em Portugal.

Muito provável é também a mudança na legislação laboral para que seja mais fácil despedir. E muitos outros trabalhadores, além dos funcionários públicos, podem acabar por ver os seus salários reduzidos. Mesmo sem a lei o permitir, o medo de perder o emprego, com o desemprego em alta, ditará a cedência ao corte salarial.

Num quadro destes, ser ou não intervencionado pelo FMI e pelas instituições europeias pouca diferença fará para as famílias em geral. As medidas de austeridade que integram a receita das ajudas financeiras estão praticamente todas prescritas e começam a ser aplicadas já em Janeiro. O absurdo está no facto de esta mesma receita acabar por alimentar, também, a necessidade de intervenção externa, por desencadear o encerramento do acesso a financiamento. Mas esta é uma realidade com que seremos confrontados em breve. No primeiro semestre concentram-se boa parte das necessidades de crédito da economia portuguesa. Se ninguém nos quiser emprestar ou se, para o fazerem, exigirem taxas de juro demasiado elevadas, o pedido de ajuda pode ser inevitável.

A grande incerteza de 2011 vive na política e na sociedade. Como vão reagir os cidadãos à austeridade, uns como a Grécia ou Espanha, ao pedido de ajuda, outros como a Alemanha? A violência que já temos visto nos últimos dias nas ruas de algumas cidades europeias pode entrar em espiral e ameaçar a frágil construção do euro.

Tudo pode acontecer em 2011.


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