Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

Mais uma cimeira, mais um vazio europeu

A desorientação e descoordenação das lideranças europeias, agarradas a um poder nacional virtual, é o mais aterrador da actual fase da crise mundial. Mais uma cimeira, mais umas ideias atiradas para o ar, mais um dia seguinte de pânico nas bolsas e nos bancos.

A desorientação e descoordenação das lideranças europeias, agarradas a um poder nacional virtual, é o mais aterrador da actual fase da crise mundial. Mais uma cimeira, mais umas ideias atiradas para o ar, mais um dia seguinte de pânico nas bolsas e nos bancos. O desastre espera-nos se a Europa não quiser ser a União.

A cimeira extraordinária deste fim-de-semana, convocada por causa da crise financeira cada vez mais próxima de uma catástrofe económica, foi mais um "não-acontecimento". Não há um pacote de ajudas especial para os países do Alargamento, não há uma aceleração da entrada para o euro desses Estados e não há qualquer nova mensagem de coordenação no ataque à crise.

Os alertas para os extraordinários riscos que a construção europeia enfrenta chegam de todo o lado. Economistas, analistas políticos e alguns governantes - em mensagens mais ou menos cifradas - têm alertado para as crescentes tensões que se acumulam nos alicerces políticos, económicos e especialmente financeiros do edifício europeu.

Alguns - como o editor do "Financial Times", Wolfgang Muchau - comparam o que se está a passar com os acontecimentos de 1992, que levaram à implosão do mecanismo de taxas de câmbio da UE. Com a grande e dramática diferença de se estar hoje perante a ameaça de uma explosão com tais efeitos destrutivos que poderá não ser possível regressar ao caminho da construção europeia, como aconteceu após a crise de 1992.

Todos sabem - embora poucos o reconheçam - que o edifício da moeda única tem falhas. Assim como todos sabem que a fronteira entre o Oeste e o Leste precisava de tempo para desaparecer. Não havendo tempo, é preciso avançar com novas regras, é preciso ser pragmático.

O euro, uma das mais extraordinárias construções da União, ameaça transformar-se num problema para todos, caso os líderes europeus insistam em enredar-se em regras que impõem para, contraditoriamente, se protegerem uns dos outros.

Para países como Portugal, Espanha, Irlanda, e até a Itália, o euro, como está a ser dirigido - indiferente aos problemas dos mais fracos -, transforma-se num colete de forças que faz explodir o desemprego. Sim, é verdade que é o preço dos erros passados. Mas isso não é um consolo para quem perde o emprego.

Para os países que não estão no euro mas querem entrar, a moeda única constitui um sorvedouro das suas reservas financeiras, um factor de instabilidade para as suas jovens democracias e uma ameaça a alguns países que integram a moeda única que ali investiram. Os casos mais preocupantes são os de bancos da zona euro que detêm instituições financeiras nos países do Alargamento. Portugal tem o BCP, mas há o exemplo da Áustria. Os seus bancos apostaram no Leste e hoje enfrentam problemas porque... acreditaram no projecto europeu.

A chave para se sair desta fase autofágica em que vive a União está em mais coordenação, mais integração e maior pragmatismo. As lideranças europeias têm de desenhar uma acção comum de ataque à crise, reforçar a acção centralizada e integrar o Leste no euro. A crise pede mais Europa.
Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias
Publicidade
C•Studio