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Muito capital, pouco trabalho

Porque é que um país onde existe uma crónica falta de capital financeiro opta por investir em equipamentos cujo trabalho poderia ser feito por pessoas?

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Porque é que um país onde existe uma crónica falta de capital financeiro opta por investir em equipamentos cujo trabalho poderia ser feito por pessoas?

Há pelo menos dois casos, diferentes, mas emblemáticos sobre este paradoxo em Portugal: défice de capital e excesso de mão-de-obra não qualificada dá lugar a investimento em equipamento que substitui trabalhadores.

O caso mais recente é o da Brisa. Porque é que uma empresa endividada como a Brisa - de tal forma que teve de sair da bolsa ajudada pelos bancos credores - optou por comparar as máquinas de portagens? Com isso precisou de arranjar ainda mais recursos financeiros não apenas para comprar as máquinas como para despedir quem trabalhava nas portagens.

Um outro caso é o das gasolineiras. Ainda que aqui se possa dizer que estão mais folgadas em capital, não se consegue compreender porque não prestam o serviço de abastecimento, pelo menos em algumas bombas de gasolina, podendo até cobrar mais por isso.

Partindo do princípio - que pode ser discutível - de que as escolhas das empresas são racionais, tem de se concluir que estão a responder a incentivos que favorecem o investimento em equipamento, mesmo que isso envolva ainda mais endividamento, em desfavor da contratação de empregados.

Que incentivos poderão então ser esses?

Um dos que é apontado é o da legislação laboral com a habitual ladainha do excesso de rigidez. Um argumento difícil de entender se olharmos, por exemplo, para o que se passou nos últimos anos na enorme quantidade de lojas que abriram nos centros comerciais. Aí se praticam regras bastante flexíveis.

O outro argumento é o que se apoia no "crédito fácil". Até à crise que se iniciou nos Estados Unidos em 2007, os bancos faziam ofertas de financiamento que, aos olhos da altura, eram irrecusáveis. O argumento é mais válido para o passado mas deixou as suas marcas no presente. Hoje as empresas têm o peso da dívida e dos equipamentos que compraram. A Brisa não pode agora voltar a substituir as máquinas por pessoas.

Uma vez que o desemprego não qualificado é hoje, como será no futuro, um dos mais graves problemas do país, a limitação deste problema no curto prazo recomendava que se criassem incentivos (económicos, de comportamento, e não financeiros) para que as empresas escolhessem mais trabalho e menos capital. Que tipo de incentivos? Um deles já aí está: taxas de juro mais elevadas. O outro é a limitação da dedução dos encargos financeiros no apuramento do lucro tributável que o Governo ensaiou mas que acabou por recuar tanto que, neste momento, parece ter resultado num conjunto vazio.


helenagarrido@negocios.pt

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