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O padre da aldeia e avaliar por objectivos

O padre da aldeia morreu. Quando chegou ao Céu, Deus indicou-lhe o Purgatório, o quarto dos fundos, escuro, frio, húmido e sem vista. Logo a seguir morreu o Silva, taxista. Deus recebeu-o em festa. E deu-lhe o melhor quarto do Céu, virado para o azul onde os anjos cantam.

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O padre da aldeia morreu. Quando chegou ao Céu, Deus indicou-lhe o Purgatório, o quarto dos fundos, escuro, frio, húmido e sem vista. Logo a seguir morreu o Silva, taxista. Deus recebeu-o em festa. E deu-lhe o melhor quarto do Céu, virado para o azul onde os anjos cantam. O padre ficou perplexo. "Oh Deus, mas eu que tive uma vida de virtude...". Pois, disse Deus, "é que nós passámos a aplicar no Céu a avaliação por objectivos. Quando o sr. padre dava missa, todos os fiéis adormeciam. Já o Silva, quando levava alguém no carro, todos se benziam, rezavam e chamavam por mim". E, com base nesta avaliação, o padre quase perdeu o Céu e o Silva, mau condutor, foi premiado.

A história anedótica revela o limite do absurdo a que pode chegar a avaliação de desempenho por objectivos. Tão bem percebida numa narrativa que ninguém sabe quem inventou.

Na edição de hoje do Negócios ficámos a saber que as chefias do fisco vão ser colocadas perante a escolha de dar mais um excelente a um funcionário, ficando elas sem a possibilidade de terem essa nota, ou reduzirem a nota do funcionário para que elas poderem ficar com essa nota.

Os chefes, na administração fiscal, estão em directa competição com os chefiados para obterem a melhor nota de avaliação de desempenho. Se forem racionais na linha do "homo economicus" clássico, obviamente que um "excelente", da quota, vai ser guardado para si. E aquele que tentar ser generoso será prejudicado.

O objectivo a traçar para os funcionários do fisco é outro dos pontos controversos. A capacidade dos serviços cobrarem impostos será um dos factores a ponderar na avaliação individual.
Reconhece-se que não é fácil excluir a cobrança dos objectivos dos funcionários do fisco. Mas o que o Governo quer fazer comporta o sério risco de colocar o padre no Purgatório e o mau condutor no Céu, como na anedota.

Os modelos de avaliação do desempenho por objectivos tiveram os seus resultados mais desastrosos na banca. Objectivos quantitativos de mais crédito concedido, mais clientes, mais cartões de crédito, mais empréstimos para compra de casa, mais subscritores de fundos de investimento, mais e mais e mais... têm na base o funcionário da agência e chegam ao topo com mais lucros, mais valorização das acções...

Como toda a subida tem um limite, a partir de determinada altura começou a inventar-se. A "conduzir mal o carro" para chegar ao Céu. E lançaram-nos a todos para o Inferno. Alguns, como se tem visto no Reino Unido, insistem em considerar que estavam a ser avaliados com os melhores critérios e, apesar dos seus bancos terem sido salvos pelo dinheiro dos contribuintes, querem continuar a receber os prémios.

O modelo de avaliação por objectivos, inspirado na parábola do burro e da cenoura, é ainda o melhor que temos para aumentar a produção em empresas grandes e impessoais, onde ninguém se sente necessário.

Definir um número que é preciso atingir é um método simples, entendido por todos. Não garante, como se tem visto, a vida da empresa e pode até conduzir à sua morte.
A avaliação por objectivos tem de ser repensada. Como elementos qualitativos e, de preferência, criando empresas menos impessoais.
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