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Helena Garrido Helenagarrido@negocios.pt 15 de Janeiro de 2012 às 23:30

Os coveiros do euro

As férias da crise no euro acabaram. A semana começa com a pesada herança do corte no 'rating' de nove dos países da União Monetária e com a suspensão das negociações entre a Grécia e a banca para reduzir a sua dívida para metade, condição para Bruxelas viabilizar o segundo empréstimo a Atenas.

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As férias da crise no euro acabaram. A semana começa com a pesada herança do corte no 'rating' de nove dos países da União Monetária e com a suspensão das negociações entre a Grécia e a banca para reduzir a sua dívida para metade, condição para Bruxelas viabilizar o segundo empréstimo a Atenas. Merkel e Sarkozy continuam a abrir buracos onde um dia, por este andar, irão enterrar o euro.

Na sexta-feira, a Standard & Poor's tirou à França e à Áustria a nota máxima de baixo risco, baixou o 'rating' de mais sete países no qual se inclui a Itália, a passos de ser considerado um investimento arriscado. Portugal, claro, está entre esses países e, obviamente, os financiamentos ao Estado português foram classificados como de elevado risco, assumindo a tal classificação de " lixo", popularizada com a primeira decisão da Moody's.

A decisão da Standard & Poor's é mais um prego num caixão para o euro e para toda a construção europeia, que está a ser montado por Merkel e Sarkozy, na sua fúria de se manterem no poder. Mesmo que para isso tenham de destruir a União Europeia.

Há meses que assistimos ao mesmo. O BCE faz e as Cimeiras e agências de 'rating' desfazem. Depois de termos assistido, durante as últimas semanas, à queda sustentada das taxas de juro dos países ditos periféricos, onde se inclui Portugal, eis que a Standard & Poor's vem dizer que o problema não está resolvido e até se pode agravar, que os líderes europeus têm andado sempre atrás dos acontecimentos - quantas vezes já ouvimos isto? - e que as divergências entre os países do euro e os seus desequilíbrios são elevados.

A única expectativa positiva que se pode alimentar é que esta decisão da S&P leve ao reconhecimento de que, por este caminho, não se resolve crise nenhuma. Um modelo de combate à crise da dívida que dura há quase três anos e que apenas agrava a própria crise, arrastando para o colapso mais e mais países, só pode estar errado. Ou não será assim? Quem sabe a França volte a ser aquela França que moderou a rigidez e ortodoxia da Alemanha, agora que foi humilhada com o anuncio público de que é mais arriscado emprestar-lhe dinheiro do que à Holanda ou à Finlândia.

Sim, é verdade que a França passou a ser tão arriscada como os Estados Unidos, cuja classificação caiu em Agosto do ano passado. Mas isso revela também o grau de irracionalidade da decisão da Standard & Poor's. Os Estados Unidos têm autonomia monetária e são, pelo menos ainda, a potência imperial. Podem imprimir dólares e em dólares se continuarão a transaccionar as mais importantes matérias-primas do mundo. Por isso mesmo, a decisão da S&P pouco ou nenhum efeito teve.

Outra contradição, nesta onda de reavaliações de risco da S&P, está na manutenção da classificação máxima para a Alemanha. Os analistas da agência de 'rating' acabaram por consagrar a ideia de que os desequilíbrios só são os défices. Quando de facto, e como o demonstram critérios diferentes quando se trata do tema das relações entre os Estados Unidos e a China, os excedentes externos contribuem igualmente para a instabilidade e são desequilíbrios tão importantes como os défices.

A irracionalidade tomou conta dos políticos, dos mercados e das agências de avaliação de risco. Portugal esperava, legitimamente, uma recompensa que não teve. Este pode ser o ano do fim da crise. Mas, por este caminho, será o ano de uma nova e mais grave crise. Se Merkel e Sarkozy quiserem ficar na história como os coveiros do euro.



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