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Portugal e Chipre

Os responsáveis políticos portugueses não podiam escolher pior altura para agravar a tensão em Portugal. A crise no Chipre abriu uma caixa de Pandora.

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Na Zona Euro vai existir um país que não pode movimentar livremente o seu dinheiro.

 

À hora em que se escrevem estas linhas ainda não se conhece o que resultou das negociações entre Chipre e os responsáveis da Zona Euro e do FMI. Mas já se conhece

o suficiente para concluir que se aprofundaram feridas entre países e se abriram ou entreabriram portas que todos estávamos convencidos de que nem existiam. São feridas

e portas que nos trazem ao pensamento perspectivas pouco animadoras. Resta-nos esperar que impere o bom senso.

 

As manifestações em Chipre este sábado dia 23 de Março, com os seus cartazes insultando a União Europeia e apelando à saída do euro, abrem feridas em mais um país. Já vimos idênticas mensagens na Grécia. E este domingo o El País teve de retirar do seu online um artigo de um economista, professor catedrático, que estava a ser usado para se dizer que havia ali uma comparação entre Merkel e Hitler. As feridas começam a aprofundar-se. Há cada vez menos analistas a moderarem a sua irritação com a dureza que enfrentam cada vez mais países do euro.

 

Ao mesmo tempo que se aprofundam as feridas quebram-se regras que, supúnhamos, estavam escritas na pedra. Há duas, especialmente, que entreabrem portas que julgávamos não existirem.

 

A primeira é a decisão do BCE de dizer que só cede liquidez aos bancos cipriotas até segunda-feira, dia 24 de Março. Ainda que se compreenda que com isso pretende acelerar um acordo, protegendo outros países como Portugal, do contágio, na prática disse que a qualquer momento pode forçar um país com problemas financeiros a colapsar e até a sair do euro.

 

A segunda decisão foi tomada pelos parlamentares cipriotas sem se perceber ainda se tem o beneplácito do BCE, FMI e líderes europeus. Na sexta-feira 22 de Março, Chipre aprovou a possibilidade de limitar a circulação de capitais o que, a acontecer, significa que os cipriotas deixaram de ter, nem que seja temporariamente, o mesmo euro que têm os outros países da União Monetária. Nem queremos admitir que esteja a passar pela cabeça de alguns líderes europeus fazer de Chipre o laboratório para a saída de um país da Zona Euro, tentados pelo facto de só pesar 0,2% do PIB. Sendo certo que o controlo temporário de movimentos de capitais não se traduz numa saída do euro, repor a liberdade é uma tarefa que a história de países da América do Sul demonstrou não ser fácil.

 

É neste quadro de renovada e violentíssima tempestade na Zona Euro que o PS resolve avançar com uma moção de censura ao Governo, o PSD agrava as suas relações com os socialistas e o CDS se preocupa com a remodelação do Governo. Valia a pena que todos os dirigentes políticos lessem atentamente a intervenção que o governador do Banco de Portugal fez a semana passada, dia 19 de Março, na Sedes para que percebessem os problemas que o país enfrenta.

Com as feridas que se aprofundam na União Europeia e os tabus que o caso do Chipre quebra, ainda mais do que no passado evitar os piores cenários de crise para os portugueses depende de nós portugueses, das lideranças políticas e da exigência de todos os cidadãos.

 

Selassie e as rendas excessivas

 

O líder da missão do FMI na troika, Abebe Selassie, deu uma entrevista à agência Lusa que vale a pena ler. Dela se destaca a crítica aos sectores da electricidade e das telecomunicações. Diz Selassie que é muito "desapontante" que os preços da electricidade e das telecomunicações não tivessem descido, apesar da redução da procura e das medidas adoptadas.  E, face a isso, promete revisitar esses dossiers. Sabemos bem o que, em economia, quer dizer a falta de reacção das empresas às condições da procura. Significa em geral que há falta de concorrência, ou, pior, a existência de um cartel. Como se tinha antecipado aqui, o caso das "rendas excessivas" não está resolvido.

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