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Regresso às origens na economia

O mercado é apenas uma de várias outras (esquecidas) organizações que resolvem aquele que é o problema económico: como utilizar os recursos e como distribuir o que se produz. É o alerta que este ano recebemos da escolha para Nobel da Economia...

O mercado é apenas uma de várias outras (esquecidas) organizações que resolvem aquele que é o problema económico: como utilizar os recursos e como distribuir o que se produz. É o alerta que este ano recebemos da escolha para Nobel da Economia - que, como se sabe, não foi criado Alfred Nobel.

Elinor Ostrom - a primeira mulher a receber o Nobel da Economia, e que, ironicamente, é uma cientista política, e não uma economista - e Oliver Williamson têm uma carreira dedicada a investigar como funcionam os universos onde o mercado não funciona.

A escolha é a imagem dos tempos que estamos a viver. O mercado enquanto única forma de solucionar o problema económico foi crescentemente endeusado desde a década de 80 do século XX. De tal forma que o estudo da economia se confundiu com o estudo do mercado.

Muitos esqueceram-se que a disciplina "economia" não é "mercados". E assim se foi também esquecendo que a economia estuda a afectação dos recursos e a distribuição da produção, buscando a eficiência e a equidade.

A economia isolou-se das outras ciências, dos outros olhares sobre o mundo, abusou da quantificação e deixou ao abandono todas as outras formas de organização "não-mercado". De tal forma que é hoje difícil voltar a interiorizar que o mercado é apenas uma alternativa sem acusar desde logo quem o afirma de pretender ter uma economia como a da ex-União Soviética.

A brutal crise desta primeira década do século XXI mostrou como o "rei mercado" estava em grande parte nu. As inesperadas falhas de funcionamento do mercado provocaram um abalo quase tão brutal como o da crise na comunidade económica científica que era ouvida pelas autoridades e pelos media.

Os olhos e os ouvidos viraram-se para aqueles que resistiram à euforia do mercado e continuaram a alertar para as falhas e a procurar organizações alternativas de afectação de recursos e distribuição da produção que não resultasse da "busca da sua satisfação egoísta" como tão bem definiu Adam Smith, talvez não o pai da economia mas sim o pai de uma das instituições da economia, o mercado.

O trabalho de Oliver Williamson incide sobre uma das organizações que correspondem efectivamente a uma alternativa ao mercado: a empresa. O que fez na sua carreira foi desenvolver o trabalho de um outro Nobel, Ronald Coase, que partiu da simples pergunta: Porque existem empresas? A investigação de Williamson constitui uma importante ferramenta para um gestor decidir o que produz dentro ou fora da empresa. E revela como pode ser disparatado impor preços de transacção na organização interna da empresa.

Elinor Ostrom tem uma investigação ainda mais estranha para os economistas que estiveram na moda. Além de usar muito mais o método indutivo que o dedutivo, a sua investigação mostra que é possível gerir bens públicos - como a pastagem que toda uma aldeia usa para os seus animais - sem intervenção do Estado nem transformação em propriedade privada.

Há instituições que resolvem o problema da utilização e da distribuição melhor que o mercado.

Há mais vida para além do mercado, ainda desconhecida por ignorância ou preconceito. Não significa o fim do mercado mas sim deixar entrar e vencer os seus concorrentes quando são melhores.

helenagarrido@negocios.pt

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