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Rotundas, ciclovias e investimento público

Durante os últimos anos, vários responsáveis pelo Orçamento do Estado, do PS e do PSD, confessaram em privado que o investimento dito do Estado precisava de uma boa varridela.

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De investimento, tinha muito pouco. Mas faltou-lhes a coragem e o apoio dos chefes do Governo.

A dura realidade da falta de dinheiro está agora a cortar a eito nos recursos do Estado para projectos, com efeitos que atingem o que é investimento e aquilo que se devia chamar desperdício com custos futuros, como foram muitos dos projectos realizados.

Quando se olha para o País, o que se vê é uma mistura de aristocracia falida e novo rico. Numa estrada convivem, de um lado, relvados e ciclovias, e, do outro, erva e lixo; noutra há uma estrutura esquecida para um suposto jardim que ninguém manteve e, por todo o lado, rotundas de relva e flores ou supostas esculturas. Mas não se constroem jardins.

Há ainda os centros culturais espalhados pelo País, alguns rodeados de terra, que são apenas custo - ninguém lá vai. Ou os quartéis de bombeiros enormes que convivem com esquadras
de polícia a cair.

Temos também as já muito debatidas auto-estradas - já vão duas entre Lisboa e Porto, e já iríamos a caminho da terceira se o dinheiro não tivesse faltado. Ninguém faz uma estrada, tem de ser uma auto-estrada que acaba por ligar poucas povoações. Os acessos ficam adiados ou porque faltou o dinheiro na altura, ou porque se complicou tanto a obra de engenharia, com viadutos e mais viadutos, que sair ou entrar da auto-estrada exige um projecto caríssimo. Insanidade? Pois com certeza que parece um manicómio, especialmente quando conhecemos outros países onde o pragmatismo impera, onde o objectivo não é fazer a estrada mas servir as pessoas.

Por aqui vivemos a loucura de fazer porque se tem de fazer, tudo em grande, o maior do mundo, porque há dinheiro da Europa. Como naquela tirada dos livros do Asterix em que alguém dizia que era preciso fazer um aqueduto. "Mas não temos rio!", reagia quem era sensato. E a resposta pronta: "Isso não interessa, porque o aqueduto é que é romano." Por cá não fazemos aquedutos mas fazemos "investimento público", não interessa qual, o quê ou para quem, o importante é gastar. Não por Roma mas por causa de Bruxelas, para gastar o dinheiro dos fundos.

Os apelos desesperados por "investimento público" que vemos feitos por alguns partidos ou municípios mostram isso mesmo - não interessa o quê, desde que se gaste.

Claro que depois de termos vivido praticamente desde 1986 a gastar porque era preciso usar os dinheiros de Bruxelas, hoje, sem acesso ao crédito para usar esses fundos, os dirigentes políticos, do Governo às autarquias, não sabem o que fazer, estão perdidos. Como será melhorar a vida dos cidadãos sem fazer um rotunda, uma auto-estrada, uma ponte, um viaduto, um quartel de bombeiros, um centro cultural?

A crise que nos espera vai ser violenta, e ainda nem começou. Do Estado às famílias, todos vamos ter de enfrentar a realidade de sermos mais pobres do que pensávamos. E sairemos dela menos saloios, menos deslumbrados com palácios inúteis a que chamaram investimento público.

helenagarrido@negocios.pt



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