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Um bolo mais pequeno mas para todos

Passou um Natal com poucas compras e muitos medos de um novo ano que promete ser historicamente dramático. Vamos empobrecer? Já empobrecemos, alguns. E vamos empobrecer mais.

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Passou um Natal com poucas compras e muitos medos de um novo ano que promete ser historicamente dramático. Vamos empobrecer? Já empobrecemos, alguns. E vamos empobrecer mais. O objectivo dos políticos tem de ser garantir que quem tem poder também empobrece como toda a sociedade, que quem tem poder não fica com a mesma fatia de um bolo mais pequeno sacando o que pode aos mais frágeis.

Quando um país empobrece, regista-se, em regra, um agravamento das desigualdades. Um aumento do fosso entre os ricos e pobres que pode não ser dramático quando falamos em quedas da produção da ordem dos 2% num ano de excepção. Não é este o caso de Portugal.

A economia portuguesa vive em crise - entendida como crescimento muito próximo de zero - há mais de uma década. Em dez anos, esta é a segunda recessão que vivemos. E no próximo ano, se não se aliviar rapidamente a restrição na oferta de crédito, podemos experimentar uma queda histórica da produção, muito para além dos 3% que neste momento estão previstos.

Como hoje se diz - e pode ler na edição em papel ou online - no Negócios Primeiro, no próximo ano todos os trabalhadores, do sector público e privado, vão trabalhar mais tempo e ganhar menos. Trabalhar mais porque haverá menos feriados para todos e para quem trabalha no sector privado haverá ainda menos dias de férias e mais meia hora de trabalho diário. Só isto já significa uma redução do salário por hora. Mas a este aumento na quantidade de trabalho soma-se ainda a pressão para a descida dos salários e um desemprego crescente que abrange praticamente todas as profissões. Nem os funcionários públicos podem, neste momento, sentir-se salvaguardados da ameaça de perder o emprego.

Claro que a subida do desemprego e as medidas de flexibilização do mercado laboral, de aumento do tempo de trabalho e de redução dos apoios para quem está desempregado, não aumentam magicamente a produtividade - aquilo de que mais precisamos para não empobrecer. Mas permitem que Portugal se deixe de destacar pela negativa nas comparações internacionais deste mundo globalizado, poderão salvar muitas pequenas e médias empresas da falência e desincentivam a subsídio-dependência. Tudo isto porque os custos do trabalho vão descer, ou seja, os salários vão diminuir.

Em termos gerais, estas medidas não resolvem nenhum problema de estrutura, porque não aumentam a produtividade e trazem consigo incentivos para se apostar em sectores de mão-de-obra barata, onde Portugal nunca poderá competir no mundo global. Mas umas eram necessárias há muito tempo, como tornar mais fácil o despedimento, sendo apenas lamentável que tenham de ser tomadas numa conjuntura tão dolorosa. Outras, como o aumento do tempo de trabalho, são uma panaceia que pretende minorar os estragos da avalanche de falências e desemprego.

O empobrecimento já chegou e vai agravar-se para todos os que vivem do rendimento do trabalho. Neste momento, o bolo mais pequeno já dá efectivamente fatias mais pequenas aos trabalhadores e a alguns empresários. O objectivo é garantir que as empresas não fecham as portas, não é viabilizar a exploração de poderes. Sim, infelizmente há um ditado popular que diz que "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte". Os poderes públicos, os governos, existem para isso, para evitar os abusos de poder no mercado de trabalho, sejam de quem trabalha como de quem oferece trabalho. Tem de se ser capaz de impedir que alguns empresários aproveitem o poder, que o mercado lhes dá, para ficarem com fatias maiores de um bolo mais pequeno. Portugal já é bastante desigual. Não precisa de mais desigualdade.


helenagarrido@negocios.pt
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