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Um Governo a semear ventos

As lideranças económicas e políticas portuguesas andam a fazer tudo para alimentar o populismo, a revolta e a implosão social. Nomeações, excepções e negócios de TDT explodiram e ameaçam acabar de vez com a expectativa de mudança na cultura de poder.

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As lideranças económicas e políticas portuguesas andam a fazer tudo para alimentar o populismo, a revolta e a implosão social. Nomeações, excepções e negócios de TDT explodiram e ameaçam acabar de vez com a expectativa de mudança na cultura de poder. Que conteúdo resta nos apelos do primeiro-ministro e do ministro das Finanças para todos juntos, em conjunto e em colaboração, vencermos esta crise?

Pedro Passos Coelho disse ontem que "não é crime ser militante de um partido". Claro que não. Bem pelo contrário. A militância partidária é (devia ser? Ou foi?) a forma democrática de participar na resolução dos problemas de uma sociedade. Militar num partido é prepara-se para exercer o poder em nome do povo e para o povo. Significa (significava) generosidade, capacidade de sacrifício, dedicação ao bem público e coragem para enfrentar poderes instalados. Sim, há ainda quem seja assim. Mas parecem cada vez menos.

Claro que ninguém poderia esperar um milagre só porque Pedro Passos Coelho disse que com ele seria diferente ou porque Paulo Portas teve sempre um discurso moralizador. Os partidos estão doentes, profunda e lamentavelmente doentes. E quem milita neles, ou para eles trabalha, em pouco ou nada contribui para melhorar o estado

das coisas. Os partidos são cada vez mais, aos olhos do cidadão comum, placas giratórias para bons empregos ou rendimentos chorudos.

Convencer os jovens de que a política é uma das actividades mais nobres que se pode abraçar é rapidamente colocado em causa quando os acompanhamos numa visita ao Parlamento. Das galerias, os jovens vão vendo deputados no Facebook, a conversarem quando alguém discursa ou ainda a mostrarem ao colega do lado as fotografias que tiraram nas últimas férias. Diz o povo que quem não se dá ao respeito tem o que merece. Como quem não respeita nem parece preocupar-se com os seus concidadãos.

Nesta explosão de notícias que alimentam a revolta, comecemos pela Televisão Digital Terrestre. A primeira fase do dito "apagão analógico" começou ontem. Quem ainda não tem TV por cabo terá de gastar, no mínimo, cem euros. Mas há 10% da população portuguesa que vai ficar naquilo que se designa por "zona sombra", ou seja, não consegue apanhar o sinal da TDT através de um simples descodificador. Terá de comprar também uma antena satélite. Imaginem onde estão e quem são essas pessoas? Vivem em zonas isoladas, são idosas e, obviamente, têm recursos muito escassos. Pois vão ficar sem televisão. É assim que o poder os trata.

Ao mesmo tempo, em Lisboa, o Governo, mais concretamente a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, nomeia para a Águas de Portugal um militante do PSD que é presidente da Câmara do Fundão mas que já não se pode recandidatar. Não está em causa o "curriculum" de Manuel Frexes, está em causa tudo aquilo que parece, porque a política também é isso. E isto acontece dias depois de se conhecer a constituição do Conselho-geral e de Supervisão da EDP, que passará de 17 para 23 membros e poderá custar, em salários, 1,4 milhões de euros. São 25 cêntimos pagos por cada um dos 5,3 milhões de famílias clientes da EDP com facturas médias de 50 euros.

Populismo? Pois é por trás dessas acusações de populismo que se têm escondido das críticas muitos dos abusadores do poder. O que o Governo e algumas lideranças económicas estão a fazer é a semear ventos. Uma irresponsabilidade que alimenta tempestades.


helenagarrido@negocios.pt
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