Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 05 de novembro de 2019 às 20:25

“Antes de imprimir esta mensagem, pense na floresta”

Que há duzentos anos atrás a área de floresta em Portugal era cinco vezes menor do que a atual. Haverá muitas razões, que desconheço, para que essa evolução tenha acontecido, mas gostaria de acreditar que tenho uma pequena migalha de responsabilidade.

E foi o que fiz. Pus-me a pensar em todo o meu passado enquanto assassina de árvores, destruidora de jardins e bosques onde os passarinhos chilreavam alegremente. Não foi preciso gastar muito tempo para concluir que seria da mais elementar justiça ser condenada à fogueira, ou talvez melhor a outra forma de extermínio com menos pegada de carbono.

 

É que não só me tenho dedicado ao longo de décadas a mastigar jornais, livros e revistas, seguramente pulverizando a média nacional dos 100 quilos de papel por habitante/ano, como ainda me pesam na consciência as centenas de milhares de páginas que vergonhosamente escrevi e tive o descaramento de policopiar.

 

Esta é uma das situações em que é fácil encher de culpa os desgraçados dos cidadãos por adoptarem comportamentos perfeitamente normais, mas que de um dia para o outro passaram a ser incluídos no "índex" dos pecados.

 

Com meia dúzia de lérias convenientemente propaladas, e sem fundamento, fizeram do simples ato de gastar papel uma atitude vergonhosa que os identifica como maus chefes de família e até pode motivar que lhes retirem a guarda dos filhos. Ainda esta semana uma adolescente me acusou de atentado contra o ambiente por moderar uma conferência de papel na mão, em lugar de vir munida de um iphone. Pudera, levamos todos com a demagogia até no rodapé dos e-mail das Finanças.

 

É claro que isto só vale para os papeis de escrita, que representam uma parcela menor e residual do consumo, pois já ninguém se lembra das arvorezinhas quando limpa as mãos aos toalhetes e companhia, o uso de papel sanitário está em crescendo, ou recebe os gadgets eletrónicos e ecológicos embalados em cartão. Aí a consciência acalma logo e no fundo até achamos fantásticos que se tenham deitado abaixo uns perigosos eucaliptos, como recomendam o Dr. Costa.

 

O problema é que quando nos pomos a pensar, exercício que convém fazer de vez em quando, somos capazes de concluir que as árvores que se abatem para fazer papel não são as que vemos da janela de casa a fazer sombra, nem a pimenteira que está há 100 anos no pátio de casa da avó, mas as que foram especificamente plantadas para esse efeito. Sentir dó por abater esses seres vivos é comovente mas não é muito diferente da taquicardia que se apodera de nós quando apanhamos uma alface para a salada.

 

Mas o que me enerva mais do que tudo neste apregoar de ideias feitas que rapidamente se tornam em leis absolutas e inquestionáveis, que não admitem sequer discussão, é que dão cabo daquilo que se propuseram defender. Isto porque quem gosta de árvores e de florestas, sabe que se não houver utilidade económica para as áreas florestadas elas deixarão de o ser e encontrarão outro fim, que pode não ser o que mais interessa. As florestas precisam de cuidados continuados, as árvores necessitam de ser limpas e cortadas, e isso custa dinheiro. Por outras palavras, se esse trabalho não for de alguma forma rentável - nomeadamente para produzir papel -, deixará de ser feito. E a floresta ao abandono descontrola-se e arde com mais facilidade, como infelizmente estamos fartos de saber. 

 

Nada percebo de silvicultura mas sei que há duzentos anos atrás a área de floresta em Portugal era cinco vezes menor do que a atual. Haverá muitas razões, que desconheço, para que essa evolução tenha acontecido, mas gostaria de acreditar que tenho uma pequena migalha de responsabilidade em que algumas dessas novas árvores, mesmo tendo sido eucaliptos, foram plantadas à minha conta…

 

Jornalista

pub

Marketing Automation certified by E-GOI