Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 24 de outubro de 2016 às 19:21

A escola em que os professores não acreditam

Enquanto os professores não acreditarem na escola pública, porque é que os pais e os alunos hão de acreditar? Mesmo quando os políticos lhes querem vender o contrário.

Os políticos apregoam o amor à escola pública. Eu também. Mas, basicamente, uma escola são os recursos humanos que a compõem e quando os recursos humanos se dizem exaustos e desesperados e descreem da educação que praticam, estão furiosos não só com o patronato, mas também com os clientes, com que escola ficamos? Não é certamente a escola pública que com paixão pela demagogia sucessivos governantes, passados e presentes, nos querem vender, mas ai dos pais que se atrevam a dizê-lo.

O assunto é sério, pense-o comigo.

As sondagens ao estado de espírito dos docentes revelam números assustadores. Os indicadores mais recentes chegaram-nos pelo estudo aQueduto, uma parceria entre o Conselho Nacional de Educação e a Fundação Manuel dos Santos, e confirmam em larga medida um inquérito à satisfação dos professores levado a cabo pela Universidade Católica, ambos divulgados pelo jornal Público. Depois de os ler, ficamos a saber, por exemplo, que 35% dos professores estão exaustos, desiludidos, desesperados, ou com outros sentimentos negativos; 48% não se sentem respeitados (o segundo número mais alto da OCDE); 64% acham que a educação piorou em Portugal nos últimos anos e 17,5% dizem que piorou muito.

Mas os professores não estão só insatisfeitos com o patronato - 85% dizem que o Ministério da Educação não valoriza o seu trabalho -, mas também com o cliente. Dos clientes diretos, os alunos, 52% queixam-se de indisciplina, 59% de falta de respeito, sendo que são 48% os que dizem que os alunos não dão valor ao seu trabalho e estão desmotivados. Não é melhor a opinião que têm dos clientes indiretos, ou seja, dos pais que pagam a escola através dos seus impostos e que são (ou deveriam ser) os principais interessados em que os professores dos seus filhos estivessem empenhados e satisfeitos: 58% dizem que não valorizam o seu trabalho e, mais grave ainda, são 60% a lamentar que "não se preocupam com a educação dos filhos".

Os professores mais velhos também são os mais descrentes e os que mais que se queixam da indisciplina, o que não é de admirar depois de anos e anos de reformas e mudanças sem fim, o que é muito complicado se tivermos em conta que 39% do corpo docente português tem cinquenta ou mais anos, e apenas 1,4% tem menos de 30 anos.

Se fosse uma empresa, provavelmente a escola estaria a abrir falência, mas como não pode fechar para balanço tornou-se um quebra-cabeças impossível, sobretudo quando não há nem consensos políticos, nem dinheiro. Por isso é a escola que temos, e, graças ao esforço de muitos professores, garante o sucesso académico de muitos. Ótimo. Mas poupem-nos por favor à demagogia, e não nos peçam para acreditar numa escola em que os próprios professores não acreditam e onde trabalham a contragosto, usando a pouca energia que lhes sobra para manifestações em favor do modelo de escola que os faz infelizes. Se calhar as palavras de ordem têm de ser repensadas.

P.S. - Quase 91% dos professores dizem que a comunicação social contribuiu para o desprestígio da profissão. Primeiro espantei-me (é raro o jornalista que não tenha uma avó, mãe ou irmã professora e alinhe pelas suas queixas), mas depois fez-se luz. Os media dão, de facto, demasiado tempo de antena a Mário Nogueira. E ninguém dúvida do efeito das suas declarações na opinião pública. Bem visto.

Jornalista

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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