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A Troca das Princesas no Caia

A satisfação é tanta para as hostes castelhanas que nem se pouparam a gastos e a trazer os reis e o governo de Madrid em peso a uma almoçarada no Caia, a que certamente não faltará a ministra Maroto, que nem nos melhores sonhos terá imaginado um desfecho tão favorável para o turismo espanhol.

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Quando ouvi falar no encontro entre o rei de Espanha e o Presidente da República Portuguesa, com festa no Caia, dei um salto. Só podia ser uma reconstituição histórica da famosa Troca das Princesas, em que numa ponte-pavilhão de madeira construída sobre o rio-fronteira, em janeiro de 1729, os reis D. João V de Portugal e Filipe V de Espanha entregaram as suas respetivas filhas, com toda a pompa e circunstância. D. Maria Bárbara tornar-se-ia rainha de Espanha, enquanto D. Mariana Vitória reinaria ao lado de D. José I e, claro, do Marquês de Pombal. Imagino Marcelo Rebelo de Sousa a percorrer o Alentejo entre saudações e vivas no chamado Coche da Troca das Princesas, que felizmente ainda está preservado no Museu dos Coches, enquanto Filipe VI virá de Madrid, como o seu antecessor, acompanhado dos ministros e de toda a sua corte. E, claro, estarão também presentes os repórteres da Gazeta de Lisboa e da Gazeta de Madrid. Mas, tal como há 291 anos, o que se passou nos bastidores ninguém sabe ao certo.

Desta vez, a coisa parece ter começado, como não poderia deixar de ser, com uma provocação de uma obscura ministra espanhola do Turismo que, sem água vai nem água vem, e borrifando-se no Governo do senhor Costa, anunciou alto e a bom som que as fronteiras iam abrir já no próximo dia 22.

A provocação, sintomaticamente proferida por uma governante de nome Reyes Maroto (!!) – só podiam estar a gozar cá com o pagode – caiu que nem uma bomba no Palácio das Necessidades fazendo sangrar o orgulho lusitano ferido. Num golpe certeiro e rápido, digno de um Nuno Álvares Pereira dos tempos modernos, as tropas portuguesas ripostaram com um amuo generalizado e uma birra, fazendo saber aos comandantes das forças inimigas que, ou acertavam a reabertura a preceito ou não retiravam os blocos de cimento da linha divisória dos Estados.

A investida surtiu todo o efeito e os castelhanos foram obrigados a recuar, para deleite dos nossos queridos ministros, que tinham ficado um bocado enxovalhados na contenda.

Mas o pior estava para vir. Quando toda a gente pensava que, acalmados os ânimos, se iria assistir a um acordo diferenciando (para melhor, claro está) a reabertura das fronteiras entre Espanha e Portugal, por forma a conseguir dinamizar o turismo que carece de espanhóis como de pão para a boca, aconteceu exatamente o contrário: Espanha abre já as fronteiras com todos os outros países e deixa-nos a secar mais uma semana, só rodando a chave no dia 1 de julho.

Com a brincadeira acontecem logo duas coisas: primeiro barra-se a entrada a 2 milhões de turistas espanhóis – o nosso segundo maior mercado – que assim vão procurar outros destinos, contribuindo para que os hotéis e restaurantes fiquem às moscas mais uns tempos. Depois dá-se um sinal, que não podia ser mais explícito, aos potenciais turistas do Norte da Europa à procura de praias e sol – a coisa em Portugal deve estar tão má que até os próprios espanhóis lhes fecharam as fronteiras enquanto as abriram a todos os demais.

A satisfação é tanta para as hostes castelhanas que nem se pouparam a gastos e a trazer os reis e o governo de Madrid em peso a uma almoçarada no Caia, a que certamente não faltará a ministra Maroto, que nem nos melhores sonhos terá imaginado um desfecho tão favorável para o turismo espanhol. Merece a adequada condecoração! 

Nota: para saber mais sobre a Troca das Princesas veja: 

http://museudoscoches.gov.pt/pt/exposicao-a-troca-das-princesas-1729/

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