Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 09 de maio de 2016 às 21:15

Afinal não são os comunistas que comem crianças ao pequeno-almoço 

Só o preconceito e o nacionalismo bacoco podem levar a concluir que os ingleses decidiram esbanjar o dinheiro dos contribuintes a cuidar de 69 mil crianças, mais uma a cada 15 minutos, numa obscura operação contra os pais... portugueses.

A nova onda de indignação contra os filhos "confiscados" aos pais portugueses pela Segurança Social britânica assume raias de absurdo, revelando muito pouco interesse pelas crianças em si e, claro, os habituais preconceitos que só um psicanalista encartado, em parceria com um historiador, poderiam ajudar a entender.

 

Na quinta-feira passada foi a vez da Visão, de quem espero sempre o jornalismo inteligente a que nos habituou, fazer do assunto tema de capa, com o bombástico título de "Os ingleses levaram o nosso filho", sobre a fotografia de um casal em que... o pai é inglês. Inflamado, o editor executivo da revista prometia uma reportagem que denunciava os abusos que "envergonham uma nação que se supunha civilizada. Um escândalo. 'Shame on you Britain'!". Já a reportagem, tomando sempre como boa a versão dos pais e constantemente sem contraditório, envergonha apenas a Visão.

 

À volta do preocupante número de crianças colocadas sob medida de proteção no Reino Unido, e que merece de facto um debate sério, tem-se feito mau jornalismo, tingindo por nacionalismo bacoco (a luta dos casais portugueses...) e preconceitos (os ingleses são frios, implacáveis, sem a nossa "noção de família"), recorrendo a explicações demasiado simplistas ou mesmo maquiavélicas: roubam-se crianças para as "vender" para a adoção, nomeadamente gay, como aliás defende o pai que agora tem honras de primeiras páginas.

 

Por isso, perante a próxima história pungente, lembre-se de que:

 

1. Em Portugal, como no Reino Unido, o Supremo Interesse da Criança é o princípio jurídico que rege as decisões que lhes dizem respeito. Ou seja, por cá também uma criança deve ser retirada, temporária ou definitivamente, em caso de perigo. Não como castigo, mas para a manter segura. Sendo assim, como é possível que jornalistas alinhem em acusar um sistema de mau quando protege um recém-nascido cujos pais se recusaram a abrir a porta de casa a uma enfermeira, num dia, a uma médica, no seguinte (sim, vão a casa!), mostrando o bebé pela janela a um polícia, não comparecendo no hospital quando convocados, preferindo fugir - e isto só na versão dos próprios?

 

2. Em Portugal, como no Reino Unido, uma criança com certo tipo de lesões que indiciam maus-tratos deve ser imediatamente protegida. É o que acontece a dez crianças que, por dia, dão entrada nos hospitais portugueses.

 

3. Em Portugal, como no Reino Unido, uma criança pode ser retirada aos pais por "perigos futuros", nomeadamente em casos de violência doméstica ou de depressão pós-parto. Faz confusão, mas quando uma mãe deprimida afoga os filhos perguntamos porque é que nada foi feito antes!

 

4. Em Portugal, como no Reino Unido, a lei permite que uma criança seja adotada sem o consentimento dos pais. Não podemos, um dia, defender os direitos das crianças e, no seguinte, condenar um tribunal que os aplica.

 

Dito isto, a dor destes pais é inimaginável, e merece todo o respeito. E haverá mal-entendidos e excessos, só corrigidos por bons advogados (e aí Portugal deve entrar) mas, recomenda o bom senso, que não se assuma que um país, com uma tradição de enorme respeito pelos direitos humanos, ensandeceu de uma vez, decidido a esbanjar o dinheiro dos contribuintes a cuidar de 69 mil crianças, mais uma a cada 15 minutos, numa obscura operação contra os pais... portugueses. Sinceramente, se não fosse tão sério até dava vontade de rir. Afinal não eram os comunistas que comiam crianças ao pequeno-almoço?!?

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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