Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 21 de março de 2016 às 20:20

As nossas filhas estão em perigo 

Enerva-me que elas sejam incapazes de imitar os rapazes na alegria de viver, mas mostrem todo o despacho a copiar os seus comportamentos mais estúpidos.

As nossas filhas sentem-se mais deprimidas, mais pressionadas pela escola, desvalorizam o seu sucesso académico, bem como o seu corpo e, em resumo, revelam-se mais insatisfeitas com a vida do que os nossos filhos. Aos 15 anos temos mais 10% de insatisfeitas do que de insatisfeitos, dizem os mais recentes dados do Health Behaviour in School Aged Children (HBSC), o relatório da OMS que de quatro em quatro anos avalia a saúde dos adolescentes de cerca de trinta países quase todos europeus.

 

O que mais me preocupa: aos 15 anos, cerca de 46% das nossas adolescentes acham-se gordas, e de facto têm excesso de peso, embarcam em dietas, mas apenas 5% faz exercício físico, queixam-se de um  vasto leque de sintomas psicossomáticos, como nervosismo, irritabilidade, dificuldades em adormecer, e estão "em baixo", pelo menos uma vez por semana.

 

E se os adolescentes portugueses, eles e elas, quase detêm o recorde dos que não gostam de ir à escola, com uns extraordinários e consensuais 90%,  o que é logo à partida um fator de risco, eles pelo menos não sofrem, tanto como elas, com o trabalho escolar de que 67% das raparigas se lamentam. Com uma agravante: as meninas portuguesas, ao contrário da maioria das europeias, nem sequer têm a recompensa de se autoavaliar como boa ou muito boa aluna: apenas 35% assim se classifica.

 

As hormonas aos saltos explicarão algumas das diferenças entre rapazes e raparigas, mas a grande variação entre os indicadores das raparigas por países, deixa claro que não podem responder por tudo.

 

O que mais me irrita (e, pronto, também me angustia): enerva-me que elas sejam incapazes de imitar os rapazes na descontração e na alegria de viver, mas mostrem todo o despacho a copiar os seus comportamentos mais estúpidos. Quer ver?

 

Em Portugal, aos 15 anos, são 10% os que fumam tabaco diariamente, mas agora elas fumam tanto como eles (a média HBSC é de 12% para ambos). Quanto a álcool, e apesar de todos os alertas de que torna o cérebro adolescente em papa, já há 18% dos rapazes a afirmar pelo menos duas bebedeiras, e 15% de raparigas a dizer o mesmo.

 

E, como se não bastasse, ameaçam cair que nem patinhas no discurso de que o consumo de canábis não "faz mal", à revelia dos alertas da OMS, que recorda os indicadores científicos dos efeitos desta droga não só no empenho escolar, numa altura em que é tão importante, como enquanto fator de risco na doença mental.  Lembra ainda que com 14,6 milhões de consumidores europeus, esta é a droga que leva mais gente a procurar tratamento (37% canábis, 28% heroína e 21% cocaína), o que deixa claro que a "inocência" que lhe era atribuída dolorosamente enganou muitos adolescentes. Apesar de mais sensatos do que os seus pares de 15 anos dos países próximos, nomeadamente Espanha, quando a pergunta é "consumiu nos últimos 30 dias?", são 4% de raparigas e 7% dos rapazes a dizer que sim, mas o número sobe para uns igualitários 10% quando se fala de um consumo ocasional.  

 

Em conclusão, as nossas filhas precisam de ajuda, para crescerem mais saudáveis. Será que lhes estamos a dar com uma mão e a tirar com a outra, incentivando-as a chegar mais longe, mas depois penalizando-as quando dão um passo em frente? Margarida Gaspar de Matos, a investigadora que coordena o estudo em Portugal, e a equipa internacional da HBSC prometem estudar o assunto. Enquanto isto, não sufoque a sua filha com medos, limitando a sua autonomia, coisa em que também somos peritos - confie e responsabilize, ao que parece é a receita certa.

 

Nota: se quiser saber mais procure em http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0003/303438/HSBC-No.7-Growing-up-unequal-FULL-REPORT.pdf?ua=1

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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