Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 10 de janeiro de 2017 às 00:01

Divorciam-se antes de se casarem

Se os números do divórcio continuarem a ser lidos com a mesma demagogia, em breve as manchetes anunciarão mais divórcios do que casamentos!

Enquanto António Costa alicia indianos a deixarem o Reino Unido para estabelecerem os seus negócios em Portugal, acenando com a vantagem do mesmo fuso horário (tal como a Gronelândia!), por cá fazem-se malabarismos com os números do divórcio.

 

Bem podem os especialistas dedicar-se, uma e outra vez, a explicá-los que não vale a pena, as parangonas dos jornais continuam a anunciar a tragédia, em variantes de "mais de metade dos casamentos acabam em divórcio". O pior é que quando a ignorância ou os preconceitos tingem a leitura dos números, a "estatística" deixa de servir a sua missão de iluminar a realidade, para nos deixar apenas mais confusos. Sobretudo em campos tão minados de medos e ideias feitas como estes.

 

Nem sempre é fácil perceber o que dizem os números, é certo. Quando lemos que em 2013, último ano de que há dados, por cada 100 casamentos, 70 acabaram em divórcio, a conclusão parece óbvia. E mesmo a calhar para mote de conversas fatalistas sobre como agora as relações já não são o que eram.

 

Mas o que não se diz é que este indicador compara os divórcios registados num ano com os casamentos celebrados nesse mesmo ano, o que resulta na ilusão de um casa-separa mais rápido do que a própria luz. Contudo, o INE dá-nos conta de que os casamentos que terminam em divórcio duraram em média 16 anos, ou seja, a maioria dos 22.784 divórcios registados em 2013 refere-se aos  65.770 casamentos realizados em 1997. E assim sendo a percentagem não é de 70%, mas de cerca de 36%. O que não é propriamente a mesma coisa.

 

Mais ainda, se analisarmos o número absoluto de divórcios, percebemos que se mantém praticamente inalterado ao longo da última década, com uma pequena descida de 2012 para 2013, que os entendidos atribuem à crise económica - e se for verdade, então é provável que quando se conhecerem os números de 2014 ou 2015 se registem os divórcios que não aconteceram então.

 

Aliás, com os casamentos a diminuir, se continuarmos a ler desta forma os números, em breve teremos manchetes ainda mais extraordinárias, anunciando que há mais divórcios do que casamentos!

 

Porque o que tem vindo a diminuir são os casamentos, substituídos por uniões de facto, que pela sua natureza são de "avaliação" mais difícil, parecendo saber-se pouco sobre a sua longevidade.

 

O que se sabe, no entanto, é que metade das pessoas que casaram em 2013 já viviam juntos,  sobretudo na zona de Lisboa e a sul, numa tendência crescente - menos de cinco anos antes não chegava a um terço. Não admira que, também por isso, a idade dos "nubentes" tenha vindo a aumentar: a idade média à data do primeiro casamento é de 33 anos nos homens (em 1980 era 25), e de 31 nas mulheres (em 1980 era de 23).

 

Curioso, no entanto, é verificar que quem casou uma vez, tende a casar-se de novo, mesmo depois de ter passado por um divórcio. São, na prática, os verdadeiros crentes na "instituição". Dos que casaram em 2013, cerca de 18% eram reincidentes. A que se soma uma boa notícia: ao contrário do que acontecia há uma década, hoje as mulheres também voltam a casar quase tanto como os homens, provavelmente mais livres do estigma que uma separação acarretava consigo. É mais um ponto a favor do casamento.

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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