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Em defesa do pai atormentado

Confessam-se "atormentados" pela dificuldade em conciliar a vida profissional com o cuidado dos filhos. Esforçam-se, mas nem a amada esposa, nem o querido patrão ficam contentes. 

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Os tempos não estão fáceis para os homens que querem ser bons pais. Acreditam que devem partilhar o cuidado dos filhos com as mães e, mais do que isso, querem fazê-lo, mas, caramba!, também andaram a queimar as pestanas, a tirar cursos e mestrados, para se tornarem nos melhores profissionais de sempre — ainda por cima logo agora que chegaram, finalmente, ao patamar em que o futuro se joga.

 

Os heróis do cinema ajudam, claro, os bons exemplos também, sobretudo os que vêm dos CEO das Apple e dos Facebook, e até se reveem naqueles nórdicos que andam com os filhos num marsúpio e nunca tinham imaginado a felicidade que dá ter um bebé aconchegado ao colo, mas o que é que lhes vai acontecer se disserem ao chefe que não podem ficar até mais tarde, porque precisam de ir apanhar o filho à escola, ou recusarem a participação numa conferência internacional, alegando que a mãe da criança já tinha um compromisso para aquelas datas? Provavelmente nunca o saberão, porque nem sequer se vão atrever a colocar a questão. O que sabem é que andam de língua de fora, trabalham mais em casa e mais horas fora dela e, apesar disso, nem a amada esposa nem o querido patrão estão contentes. 

 

Mas há pelo menos uma classe de gente que está fascinada com eles, os sociólogos. "The New Millennial Dad – Understanding the paradox of todays fathers" ("Compreender o paradoxo dos pais de hoje") é o título do relatório que resulta de uma longa investigação que o Boston College Center for Work & Family leva a cabo já há vinte anos.

 

Os dados são obviamente os de um universo norte-americano, mas basta observá-los com atenção para perceber que a realidade destes pais que nasceram entre os anos 80 e 90, não é muito diferente da dos nossos. Nem tão-pouco o que lhes vai na cabeça.

 

A primeira boa notícia é que a maioria destes pais acredita que é possível conciliar família e trabalho, e ter o melhor dos dois mundos. Dito isto, enquanto os "Igualitários" (32%) afirmam partilhar a meias o cuidado com os filhos, os "Atormentados" (30%) confessam estar longe do ideal, vivendo bem mais angustiados do que os "Tradicionais" (30%), que consideram que o problema é das mães.

 

Analisando o perfil de uns e de outros, constata-se que a maioria dos "Atormentados" fez um investimento muito maior nas suas habilitações (60% têm mestrado ou mais, por contraponto a 44% dos "Igualitários" e a 20% dos "Tradicionais"), o que significa não só uma aposta clara na profissão, como também a probabilidade de ocuparem lugares que exigem mais horas de trabalho e mais responsabilidades a que é difícil virar costas.

 

Nada que também não aconteça com as mulheres, é verdade, mas as diferenças culturais ainda são fortes: enquanto 86% das mães dizem que a sua meta profissional é conseguir um equilíbrio entre a vida familiar e o trabalho, 83% dos homens aposta em subir na carreira.

 

Esta é a explicação mais fácil porque, suspeito, o cerne da questão está em que, apesar de todas as (boas) voltas que o mundo deu, os pais continuam a sentir-se meros "ajudantes", na melhor das hipóteses braços-direitos, de mães que sabem tudo e ditam todas as regras que os querem ver executar com rapidez e sem discussão. E a prova lá está: quando se pergunta às mães quem é que deve cuidar da criança quando está doente, 90% levanta o braço, e metade confessa sentir-se mal quando o pai toma mais conta das crianças do que ela. Pois é, não são só os homens que não conseguem cortar o círculo vicioso.

 

Jornalista

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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