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Fim aos grafitti

O Presidente da República com a sua imensa capacidade de mobilizar os portugueses deveria liderar um movimento para devolver o respeito pelo património que é de todos.

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Quando o comboio chega à plataforma, percebo que está grafitado da primeira à última carruagem. Como é possível levar a cabo aquela obra, de vandalismo, entenda-se, sem que ninguém dê por nada? Gente de carne e osso, já nem estou a falar das câmaras de vigilância.

 

Subo do Rossio para o Bairro Alto, e percorro as ruas pasmada perante o nojo em que estão as paredes das casas, os muros, e até as portas. Há placas indicativas e sinais de trânsito completamente ilegíveis.

 

Num fontanário deparo-me com o cúmulo da impunidade, um "anúncio" de venda de carros, em que o autor deixou o número de telemóvel. Mesmo tendo prestado esse favor às autoridades, duvido de que alguém se tenha dado ao trabalho de lhe ligar para se apresentar na esquadra mais próxima, talvez esperem por um domingo à noite para o irem buscar a casa à hora do telejornal.

 

O que está à vista é que grafitti, tags e quejando destroem o património em Lisboa, e em todo o país de norte a sul, numa violação clara do património nacional e particular. Sem respeito pela propriedade alheia, por quem mora nestes lugares, circula nestes transportes, habita estes espaços.

 

Enquanto isto os media repicam em êxtase com a notícia de que Portugal é a última Coca-Cola do deserto, campeã dos Óscares do Turismo, que os estrangeiros matam e esfolam para nos visitarem. E a malta partilha nas redes sociais, babada, neste triste complexo de inferioridade que nos leva a valorizar, antes de mais, aquilo que os estrangeiros valorizam em nós. Nestes momentos de delírio coletivo, são mesmo atingidos de amnésia, esquecidos de que na semana anterior os amaldiçoavam por encherem as tasquinhas, os restaurantes e os alojamentos locais.

 

Procuramos sempre elogios externos e bodes expiatórios, numa bipolaridade que assusta. O importante do exercício, no entanto, é ficarmos de braços cruzados. Como estamos há décadas perante esta selvajaria. O que nos leva a aceitá-la? Porque toleramos esta infração à lei e à estética, como se pedir consequências para os infratores fosse uma suposta opressão sobre jovens que correm o risco de ficar traumatizados se não lhes dermos as paredes de uma Sé Catedral para expressarem a sua alegada veia artística. Ou o seu desejo de imortalidade.

 

Quando de visita a Lisboa, o famoso mayor de Nova Iorque, Rudy Giuliani, escandalizou-se com o que viu, avisando que havia uma relação direta entre o pequeno e o grande crime. Legendaram-no "fascista" e não lhe deram ouvidos, mas hoje vários estudos portugueses revelam que muitas destas "pinturas" são feitas em bando e representam uma marcação de território entre gangues. São a ponta do icebergue, de um clima de insegurança e desrespeito maior.

 

Face a tudo isto as câmaras municipais anunciam a sua incapacidade de chegar para tanto metro quadrado de tinta, mas também a dificuldade de contratar empresas de limpeza e, mais extraordinário ainda, empresas para fiscalizarem que as primeiras cumpriram com o acordado, numa teia confusa e burocrática que até mete o Tribunal Constitucional.

 

Nalguns lugares, juntas de freguesia e movimentos de cidadãos procuram agir, mas sem o apoio das autoridades, veem o seu esforço destruído em vinte e quatro horas ou menos. E compreensivelmente rendem-se. 

 

Ao permitirmos que tudo fique na mesma, fazemos mais do que deixar sujar paredes. O que torna esta luta num desígnio nacional. O Presidente da República com a sua imensa capacidade de mobilizar os portugueses deveria liderar um movimento para devolver o respeito pelo património que é de todos. A confiança de que cada um de nós pode fazer a diferença. O desafio está lançado.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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