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Já fizeram partilhas?

Suponho que o dinheiro até será o que menos dói dividir, muito pior pode ser uma cadeira, porque uma cadeira de casa dos nossos pais não é uma cadeira como a das lojas, e pouco interessa o seu valor de mercado.

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Reza a história que quando alguém elogiou a amizade que unia uma determinada família, o cardeal Cerejeira perguntou: “Mas já fizeram partilhas?” Pois é, são muitas vezes a prova de fogo, que põe a descoberto mágoas e dissidências que a presença e a arte dos pais tinham sido capazes de camuflar, e que depois da sua morte surgem inesperadamente perante um prato da Companhia das Índias ou uma cama de bilros. Muitas vezes, para surpresa até do próprio, que sem perceber bem porquê explode quando um irmão lhe garante que a mãe sempre quis que o quadro da sala ficasse para ele, ou a irmã regateia o pedaço de jardim que o pai tanto gostava de cultivar. Desgosto, saudades e injustiças paternas, reais ou simplesmente sentidas como tais, para o caso pouco importa, misturam-se num veneno que se espalha mais depressa do que qualquer coronavírus. Ainda por cima, com uma taxa de mortalidade das relações fraternas bem mais pesada.

As estatísticas da Justiça confirmam-no — os processos referentes a partilhas de bens são dos que mais sobrecarregam cartórios e tribunais e, em 2012, levavam em média cerca de três anos e meio a obter uma primeira decisão, fora os recursos que se lhes podiam seguir. E, nem sequer é preciso que estejam em causa grandes fortunas, porque o complicado das partilhas é ser um exercício facilmente contaminado pelas emoções.

Suponho que o dinheiro até será o que menos dói dividir, muito pior pode ser uma cadeira, porque uma cadeira de casa dos nossos pais não é uma cadeira como a das lojas, e pouco interessa o seu valor de mercado. É a cadeira onde a nossa mãe se sentava para nos dar banho, acolhendo-nos depois na toalha aberta, que se fechava muito apertadinha para nos secar, talvez num dos raros momentos em que o seu colo nos pertencia por inteiro. Da mesma forma, a cómoda do quarto do nosso pai, não é só um móvel bonito, estilo D. Maria ou Império, mas o lugar onde sabíamos que guardava, escondidos na gaveta das meias, os nossos desenhos e bilhetes. E, é claro, que o serviço dos dias de festa, muito mais do que um conjunto de pratos e travessas da Vista Alegre, aliás já todos esbotenados, contém em si a memória dos momentos em que nos juntávamos à volta da mesa, os nossos pais à cabeceira, e ríamos com uma cumplicidade que, talvez, tenha desaparecido entretanto. A listagem podia continuar infinita, chegando ao último frasco de compota que a nossa mãe ainda fez, e os motivos que nos prendem a cada um dos “itens” que marcaram a nossa infância iriam até ao infinito e mais além.

 

Os processos referentes a partilhas de bens são dos que mais sobrecarregam cartórios e tribunais.



O ideal é que nunca fossem necessárias partilhas, porque os nossos pais seriam imortais, mas não sendo assim, haverá sempre pelo menos dois irmãos que desejam a mesma coisa, e um que a vai receber, e o outro não. E quando digo “desejam”, não me refiro àquela ânsia que nos toma quando entramos numa loja e nos sentimos atraídos por um candeeiro, mas a um desejo irracional, a uma sensação de que tudo se joga naquela coisa, sendo insuportável perdê-la. Muito menos para aquele que no nosso Deve e Haver particular, já recebeu em vida mais do que a sua quota-parte da atenção dos pais.

Mas a agoirenta pergunta do cardeal Cerejeira, pressupunha, apesar de tudo, a possibilidade de que alguém já tivesse contornado o cabo das Tormentas e voltado inteiro.

É claro que ajudará que as contas a saldar não sejam grandes, e que a relação entre todos seja intrinsecamente verdadeira, o que não significa ausência de discussões, zangas e confrontos, mas garante o perdão, o desejo de conciliação, e a consciência de que mais vale engolir alguns sapos do que perder a melhor herança que os pais lhes podiam ter legado – os irmãos.


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