Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

"Julga que é 100% Humano? Pense melhor" 

O neurocientista John Cryan está em Lisboa para lhe contar que a microfauna do intestino pode pôr o cérebro a pensar.

  • Partilhar artigo
  • ...

Dá falta de ar ver como tanta gente se tornou obcecada pela limpeza, de toalhete desinfetante em riste, aterrorizada com o próximo ataque de bactérias e micróbios. Já há creches que obrigam os pais a calçar botas de hospital para entrar, mães que se aterrorizam com os tabuleiros dos refeitórios, e empresas onde se cai para o lado com o cheiro a lixívia, mas a loucura chega ao nível de colete de forças com a moda dos produtos que prometem tirar "o lixo que se acumula dentro de nós".

 

Foi certamente por reação a tudo isso que cliquei com tanto entusiasmo num vídeo "teaser" da conferência "Gut Thinking  - How your microbes influence your life" (Pensar com o Intestino - Como os seus micróbios influenciam a sua vida),  que acontece quinta-feira, no auditório da Fundação Champalimaud. "Julga que é 100% Humano? Pense melhor..." dizem as letras sobre fundo preto. As imagens de um parto, de uma criança a brincar na areia, de um beijo, servem de fundo à informação de que ELES estão dentro de nós e à nossa volta e "controlam" o nosso cérebro e o nosso comportamento...

 

Não grite, não desmaie. Em lugar disso, largue lá o paninho do pó, e vá ao Google pesquisar o nome de um neurocientista irlandês chamado John Cryan, que será um dos oradores em Lisboa.

 

Mas se preferir posso ser eu a contar-lhe um bocadinho do que aprendi desta história. O corpo humano contém triliões de microrganismos, mais do que todas as nossas células juntas e, embora tenham má fama, são fundamentais na nossa saúde. Até aí nada de muito novo, já ouvimos falar de probióticos, mas o que agora nos vêm dizer é que "a microfauna do nosso intestino pode ter um impacto gigantesco no nosso estado de espírito," como escreve a Scientific American.

 

O parto parece funcionar como tiro de partida. John Cryan e a sua equipa compararam ratinhos nascidos por cesariana com ratinhos nascidos por parto normal, para concluir que os primeiros, provavelmente pelo facto de não terem sido sujeito ao stress extremo e às bactérias de uma passagem pelo canal vaginal, revelavam não só sistemas imunitários mais reativos (mais alergias, diabetes, etc), como também mais alterações do humor (ansiedade, comportamentos repetitivos, etc). Mais estranho ainda: os ratinhos sem micróbios no intestino tinham mais dificuldade em interagir com outros ratinhos. E ainda mais estranho: quando se transfere a fauna de um intestino para o de outro, o ratinho recetor assume também traços da personalidade do dador!

 

A explicação talvez seja mais simples do que parece, basta deixarmos de pensar no corpo humano de forma tão compartimentada, acabando de vez com a dicotomia entre corpo e mente. Para Cryan é qualquer coisa como: "O cérebro age nas funções gastrointestinais e imunitárias que ajudam a criar a fauna do intestino, e os micróbios do intestino fabricam compostos neuroativos, incluindo neurotransmissores e metabolitos que agem no cérebro."

 

E embora não seja possível fazer extrapolações diretas de ratos para humanos,  John Cryan e muitos outros cientistas acreditam que é bem provável que um dia nas prateleiras das farmácias estarão psicobióticos - umas pastilhas com bactérias antidepressivas ou ansiolíticas! Decididamente o mundo é muito mais divertido do que às vezes o imaginamos.

 

Nota: a iniciativa é da Ar - Respire Ciência. Os bilhetes estão já esgotados, mas na quinta-feira, pelas 21 horas, pode assistir em "live streaming", http://live.fccn.pt/champalimaud/ar

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias