Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 19 de setembro de 2016 às 19:20

Matar a galinha dos vistos de ouro 

De uma só penada, preparamos-nos para arrecadar milhões, sacados aos papalvos que acreditaram nas lérias de um sistema fiscal estável (que diabo, era um país europeu e não o Burundi).

Por vezes caímos na tentação fácil e injusta de duvidarmos da clarividência, competência e sagacidade dos nossos dirigentes e governantes, deixando-nos enlear na ladainha de maledicências que a difícil missão de mandar sempre arrasta.

 

Não há melhor penitência para esse pecado do que sermos surpreendidos pela bondade e genialidade de algumas decisões e medidas, como é, por exemplo, o caso deste novo imposto sobre as casas.

 

É realmente necessário ter sido dotado pelo Criador de um dom superior para ser capaz de engendrar um mecanismo tão fantástico e cujo alcance ainda poucos escrutinaram.

 

Primeiro andámos anos a fio a "vender" Golden Visa e a propagar que eram muito melhores do que os ditos cujos da concorrência espanhola, grega ou búlgara porque, além do sol e da comida cá da terra, ainda tinham associado um regime fiscal simpático. E lá apareceu uma multidão de chineses e de outras latitudes a comprar casas e bairros inteiros em troca do almejado cartãozinho que lhes permite pôr os filhos a estudar na Europa, viajar sem problemas, e outras mordomias.

 

Depois dedicámo-nos a convencer reformados com algum dinheiro a virem para cá instalar-se a troco de uma substancial redução dos impostos que lhes são cobrados. Muitos desses, naturalmente, acabaram por comprar casa na pátria que os acolheu, virando as costas ao senhor Hollande e a outros dirigentes que lhes queriam ficar com o dinheiro.

 

E, finalmente, quando estavam já amarrados, sem qualquer hipótese de levarem daqui os dólares, os kuanzas e os yuans transformados em tijolos e pedra mármore, atiramos-lhes para cima com um imposto especial que lhes vai transformar o idílio europeu num pesadelo das arábias.

 

Com este golpe, e de uma só penada, preparamo-nos para arrecadar 200 milhões, pelo menos é o que dizem, fundamentalmente sacado aos  papalvos que acreditaram nas lérias de um sistema fiscal estável (que diabo, era um país europeu e não o Burundi). Absolutamente notável!

 

Alguns dirão que a coisa não é bem assim, que muitos dos nossos também vão levar mais está chibatada, mas acredito que os campeões olímpicos de esquemas já tenham posto a trabalhar com afinco um batalhão de advogados, notários e consultores na fragmentação das propriedades, ou lá o que for preciso. É claro que vai sempre sobrar para uma mão-cheia de  inábeis que vão comer pela medida grande por terem herdado a quinta da tia-avó ou aplicado as poupanças de 30 anos de sacrifícios em França  num "palácio" de fazer inveja ao resto da aldeia. E escusam de vir falar em injustiça porque, como estamos cansados de saber, o importante é que os ricos paguem a crise.

 

É claro que alguns dirão que isto vai acabar com o negócio dos Golden Visa e que provavelmente os interessados irão procurar outros países menos criativos em matéria fiscal. Mas quanto a isso a deputada Mortágua já nos veio afastar as preocupações, explicando que os Golden Visa não têm qualquer efeito positivo na economia.

 

Confesso a dificuldade em compreender como é que um apartamento construído na Cruz de Pau é um investimento que cria emprego e dinamiza a atividade económica e uma moradia em Cascais ou na Foz não interessa a ninguém, mas trata-se seguramente da minha iliteracia funcional. A mesma que, num primeiro momento, não me deixou perceber que a melhor forma de financiar o buraco das concessões dos transportes públicos que foram revertidas era pôr os estrangeiros a pagá-los. Decididamente criativo.

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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