Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 06 de novembro de 2018 às 20:20

Não tenho "maturidade" para "produtos financeiros complexos"

Pessoas com o meu grau de iliteracia financeira devem lidar com os bancos apenas como caixas fortes. Para não se queixarem depois.

Passámos os últimos anos a ouvir as histórias dramáticas de gente que perdeu todas as poupanças investidas naquilo que se revelaram produtos tóxicos, e já vimos incontáveis filmes sobre a queda de Wall Street e a falência de dezenas de bancos, mas a verdade é que quem não passou por isso, na pele, não consegue imaginar a confusão, a raiva e a dor desta tragédia. Perder, sem que se perceba porquê, dinheiro que foi ganho com tanto esforço e se imaginava em segurança é um golpe insuportável.

 

E, no entanto, será que desde aí alguma coisa realmente mudou? Ah, é claro que os bancos se protegeram, e hoje o "tomador" de qualquer uma destas coisas assina uma resma de papéis a garantir que as "subscreve por iniciativa própria e em plena consciência", não vá o diabo tecê-las - nem um contrato de casamento, avisa com tanta clareza onde é que os noivos se vão meter! -, mas terá consciência dos riscos que corre? Aposto que se contam pelos dedos aqueles que leem as "Informações Fundamentais ao Investidor de Produto Financeiro Complexo", com o subtítulo "Um investimento responsável exige que conheça as suas implicações e que esteja disposto a aceitá-las", e menos ainda os que as entendem. Quando abro uma carta do banco em que me avisam que "As obrigações foram substituídas por novos ativos denominados em dólares, designadamente novas Notes, recebidas sob a forma de American Depositary Shares," e por aí adiante, não percebo patavina. Mas quando quem sabe me anuncia que aquilo quer dizer que é bem provável que perca parte do meu precioso dinheiro, entro em verdadeiro histerismo.

 

A verdade é que este jargão todo não é acessível a quem, na realidade, não tem a mais pequena noção de como funciona o mundo financeiro. É como pretender que por rubricar uma partitura de música, a saberia tocar, ou que por até conseguir decifrar um relatório médico com a ajuda do Google, seria capaz de o escrever.

 

Contudo, porque acima de tudo queremos manter o valor das nossas poupanças, confiamos cegamente num "gerente de conta", que na maior parte dos casos nunca vimos mais gordo, e que por acaso até é parte interessada. Quando o pobre, depois de muita insistência, finalmente nos diz que "O pior que pode acontecer é perder um pouquinho", mas que bem feitas as contas, mesmo que perca, tudo somado, é bem provável que ganhe, damo-nos por satisfeitos. Nem paramos para pensar que o porteiro de um casino nos diria exatamente o mesmo.

 

Ou seja, é preciso assumir que a culpa, na maioria dos casos, não é nem dos bancos, nem dos gerentes, mas de quem se atira para estas águas sem saber nadar. O responsável é mesmo o nosso cérebro que fica completamente adormecido quando alguém nos promete um ganho, bloqueando a pergunta óbvia de inquirir o que é que estamos a sacrificar em troca. Depois, quando as coisas correm mal, é-nos de tal forma insuportável reconhecer o erro, que desatamos logo à procura de bodes expiatórios, acabando invariavelmente em políticos corruptos e banqueiros endinheirados a fumar charutos em iates no mar das caraíbas. 

 

A consciência desta reflexão obriga-me a concluir que o único risco que estou preparada para assumir é o de encarar um banco como uma caixa-forte. E mesmo assim, apenas porque ainda não inventaram colchões à prova de incêndio e com cadeado. 

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

pub