Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 29 de outubro de 2019 às 18:20

O amor incondicional do meu GPS

Esta crónica é uma homenagem ao meu GPS. Quando me engano, limita-se a reajustar a rota sem alterar a voz, ou proferir um comentário discriminatório de género.

Não tirei a carta à primeira, chumbei na condução, e ainda me lembro do ar nervoso com que o examinador voltou à base, agarrado com unhas e dentes, não resistindo aqui e ali a usar o pedal do travão que lhe assistia. É claro que a culpa era dele - a culpa dos nossos erros é sempre dos outros! -, que me reduzira a uma pilha de nervos com as suas instruções agressivas. "Vire aqui", dito mesmo em cima da saída, "Passe para a outra faixa", quando eu estava perfeitamente bem naquela, "Não viu que vinha ai um velocípede?", sendo mais do que evidente que não, ou imaginava-me uma serial killer? Quando, tremendo já eu dos pés à cabeça, me mandou estacionar num lugar minúsculo, numa descida inclinada, ali próxima do Jardim Zoológico de Lisboa, desatei a chorar, dizendo-lhe que queria ir para casa. Tenho a certeza de que ele também.

 

À segunda passei. Mas não foi graças aos ensinamentos dos homens da minha vida, o meu pai nunca teve carta, efeito secundário da II Guerra Mundial, suspeito, e irmãos e namorados tentaram, mas como sabe qualquer mulher, aprender a conduzir ao lado de alguém que não faz cerimónia connosco só pode acabar com todos aos gritos, portas a bater e veículos abandonados no meio da estrada -"Se é para me estares sempre a corrigir, guia tu!"

 

O trauma, o nosso e o deles, deixa marcas, e se a tolerância zero ao álcool na estrada obriga a que muitas mulheres conduzam com um homem no carro, o exercício continua a ser penoso. Na prática, estão firmemente convencidos de que mesmo num estado impróprio para soprar balões, representam um perigo menor para a segurança rodoviária do que uma mulher ao volante. É claro que não é politicamente correto dizê-lo, e ninguém os apanhará nos tempos que correm a admiti-lo, mas é verdade, mesmo quando as estatísticas indicam que elas têm menos acidentes, e menos multas.

 

Mas não é a única guerra dos sexos que acontece dentro de um carro, porque por muito que pareça um enunciado de um preconceito estereotipado, a maioria dos homens (disse, a maioria) não aceita abrir uma janela e perguntar a um transeunte o caminho, enquanto a maioria das mulheres, voltei a dizer maioria, prefere valer-se da sabedoria de um outro ser humano, a perder tempo a decifrar um mapa.

 

E é aqui que chegamos ao amor ao GPS, partilhado ao que parece por 75% dos felizes proprietários de um telefone inteligente, sejam homens ou mulheres porque, pelos vistos, eles já não se importam de perguntar, desde que a questão seja posta a um dispositivo eletrónico que guarda segredo.

 

Pessoalmente, parece-me que gosta mais de mim do que eu dele, e até fico furiosa quando no ecrã surge a informação de que vou demorar 14 minutos a chegar a um sítio para onde não faço a menor intenção de ir, só porque na semana passada lá estive, mas tenho de admitir que quando preciso dele, está sempre lá. Não me julga nem critica quando falho todas as indicações que me oferece; mantém a mesma exata voz serena quando precipitadamente assumo que 100 metros são 200, e viro antes de tempo, limitando-se a reajustar a rota sem um insulto ou um comentário discriminatório de género. E, se depois, cometer de novo o mesmo disparate, nem por isso se exalta, ou me rotula de idiota ou mentecapta. É por isso que não pude deixar de revelar ao mundo o que é, de facto, o amor incondicional. A minha bitola agora é esta, menos do que isto, não se admite. 

 

Jornalista

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