Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 17 de maio de 2016 às 00:01

Onde já lá vai o pão nosso de cada dia

As horas passadas a discutir o que se vai por no prato são roubadas ao horário de expediente, com efeitos dramáticos na produtividade total, na marginal e na nacional, e mais houvesse. A "alimentação saudável" é uma nova religião.

Não há por aí ninguém que queira fazer um estudo sobre o efeito da obsessão pela "alimentação saudável" na produtividade das empresas? E na balança de pagamentos, com a importação de toneladas de rebentos disto e de frutos daquilo de lugares recônditos, porque o pão de trigo e o leite cá da terra já foram proscritos? E, já agora, na nossa saúde mental?

 

Pronto, é verdade que esta nova religião, com mais seitas do que o deus me livre, também contribuiu para abrir negócios nunca antes imaginados, e para vender livros (ou melhor, bíblias), e para fazer prosperar consultórios, mas as horas que agora se passam a discutir o que se vai pôr no prato são roubadas ao horário de expediente, com efeitos dramáticos na produtividade total, na marginal e na nacional, e mais houvesse. O assunto discute-se acaloradamente no emprego, conselhos de administração incluídos, nas redes sociais, entre amigos e inimigos, em família e com os vizinhos e, é claro, à mesa, assumindo um autoritarismo inacreditável: "Vais comer gordura parcialmente hidrogenada?!?", exclama um, "Sempre é melhor do que acetilcolina!", responde outro, fazendo uso de um "nutricionês" certamente tirado ao domingo, em parceria com o inglês técnico do eng. Sócrates.  

 

Pois é, onde já lá vai o "Pão nosso de cada dia nos dai hoje", de gente grata com o que conseguia pôr na mesa. Esta religião é outra, embora lhe plagie as linhas mestras: também tem virtudes e pecados (se os mortais fossem só sete!), e há indulgências plenárias que aceleram o acesso à vida eterna, com a diferença de que esta acontece ainda nesta terra. 

 

Também o que não faltam são líderes espirituais - um líder supremo (Google "Dieta Dr", e a lista não tem fim), e depois os apóstolos que não só pregam a doutrina como fiscalizam a sua aplicação, premiando com anos de vida ou condenando ao inferno do envelhecimento e da obesidade. Basta sentar-se numa esplanada e estar atento à conversa da mesa do lado: "Tens muita fome? Então passa o pãozinho de espelta para a manhã!  Não, não, o ovo só pode ser ao jantar! E não comas fruta a seguir à refeição, senão vais engordar/oxidar/morrer com cancro."

 

Inerente aos ganhos em saúde, está o caminho da perfeição, numa permanente quaresma de jejuns e abstinências (mais valia ir de joelhos a Fátima). Mas como a carne é fraca, não esqueceram o perdão, sob risco de desaparecer a congregação, obviamente desde que o arrependimento seja genuíno e a penitência cumprida: "Agora tens de ficar dois dias sem comer X ou Y (varia segundo a seita)." De fora não ficou evidentemente a boia de salvação: "Se estiveres mesmo muito desesperada podes trincar uma (ler 1) bolacha, ou então liga-me!" (digam-me quem é que consegue comer só uma (1) bolacha, adiante).

 

Finalmente, como tudo isto se passa no século XXI, é preciso validar estes assomos com muitos "estudos" e muita "ciência" que, necessariamente, falam de serotonina e dopamina, tão na moda. Assim não se come uma banana porque nos apetece uma banana, ponto final, mas porque contém, ai vamos ver se não tropeço nas teclas, triptofano, que alegadamente aumenta algures a produção de serotonina  produzindo, supostamente, a felicidade,  de onde resulta a conclusão incontestável de que as bananas vencem a depressão.

 

É evidente que o resultado é o excesso de peso e a obesidade, pudera quando não se fala de outra coisa senão comida, quem é que não sente fome? Decididamente "A melhor maneira de resistir à tentação é ceder-lhe", e não falar mais no assunto - volta Oscar Wilde, estás perdoado.

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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