Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 02 de outubro de 2018 às 19:48

Quem disse que queríamos juízes imparciais?

Nos últimos dias ficou assustadoramente evidente de que mais do que não acreditar na imparcialidade da Justiça, muitos portugueses lhe têm raiva.

Faz-me arrepios ver a Justiça transformada num jogo de futebol, em que uns gritam por uma equipa e outros pela outra, unidos apenas pela desconfiança no árbitro.

 

Arrumado o assunto Bruno de Carvalho, a nação regressou com renovado ânimo à Operação Marquês, e a todas as outras que lhe andam na órbita e de que felizmente não sei os nomes. Pronta por fim a acusação, dados à estampa os poucos parágrafos que os jornais ainda não tinham publicado, soou o apito para a segunda parte, a fase de instrução, em que é tomada a decisão de fazer seguir, ou não, o caso para julgamento. Mas dado que há dois juízes no Ticão (que mais parece nome de churrascaria brasileira), e vá-se lá saber porque a Constituição determina que nem o julgador pode escolher quem quer julgar, nem o cidadão escolher quem o julga, era preciso atirar a moeda ao ar.

 

O frenesim tomou as claques. A aleatoriedade enerva sempre, sobretudo num país que desconfia consistentemente de tudo e de todos - afinal se os sorteios não fossem uma trapaça, porque é que nunca nos sai o Euromilhões? Enquanto o engenheiro Sócrates e a sua equipa revelavam a aposta no "novo" juiz, conhecida que é a sua animosidade ao "antigo", a facção dos que querem o ex-primeiro-ministro e os seus supostos compinchas atrás de grades uniu-se numa improvável onda de apoio àquele que validou a tão aguardada acusação, e insensatamente deu a entender para que lado se inclinava.

 

Rapidamente ficou assustadoramente evidente de que mais do que não acreditar na imparcialidade da Justiça, muitos portugueses lhe têm raiva. A probabilidade de o resultado final ser diferente daquele que consideram ser o correto - culpado ou inocente, conforme o clube - é-lhes verdadeiramente insuportável. E de pouco vale recordar-lhes que a justiça tem mecanismos para diminuir os erros, e afinar as decisões. Neste caso, por exemplo, se a decisão for de pronúncia, falta ainda o julgamento que pode ter um desfecho completamente diferente, e caso seja pelo "arquivamento", é passível de recurso. Nem tão-pouco lembrar que é exatamente porque assegurar direitos e garantias é complicado, e um dia podemos ser nós naquela sala, que o sistema judicial é complexo, e não se compadece com um simplismo emotivo, nem com um jornalismo que demasiadas vezes mais parece um relato de futebol.

 

Mas porque nos havemos de admirar que os adeptos duvidem, se a própria Justiça dá sinais de acreditar tão pouco em si própria? O Tribunal instado a deixar televisionar e fotografar o sorteio aceitou, como se tratasse da Liga dos Campeões, ou do resultado do totoloto. Se o fez por imaginar que ao "mostrar tudo", iria sossegar os vencidos  revelou um enorme desconhecimento da natureza humana. Segundos depois nas redes sociais já se chamava a atenção para o facto de o computador ter estrebuchado, como se até ele hesitasse, enquanto as insinuações indignadas de fraude eram partilhadas incansavelmente.

 

Cá para mim, e tendo tudo isto em conta, parece-me que saía muito  mais barato aos contribuintes que julgamentos se passassem a fazer em versão reality show, em que através de chamadas de valor acrescentado se votava na decisão A ou B. Assim como assim, ficavam todos igualmente descontentes. 

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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