Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 23 de abril de 2019 às 20:15

"Quer um filho melhor por este preço?"

Não se deixe enrolar no “slogan” do “Não pedi para nascer”, como se tivesse de lhe pedir desculpa por o ter desejado tão profundamente. Responda com um dito igual: “Faz-te à vida!”

O título desta crónica, e do livro que tem o mesmo nome, não é fruto de um rasgo do meu génio. A sério que não é. Ouvi-a da boca de um dos meus filhos, então com 15 anos, a tirada final de uma discussão em que me explicava que estava a ser demasiado exigente com ele. Afinal, argumentava, era educado, dizia bom dia, boa tarde, não roubava nem cuspia na rua, não envergonhava os pais em púbico, na maior parte dos dias até era extremamente simpático, e tudo isto por uns míseros trinta euros de mesada. Decididamente, que mais podia uma mãe pedir?

 

O que entendi naquele momento é que, em plena adolescência, estava perfeitamente convencido de que a sua existência resultava de um capricho dos pais, que o tinham posto neste mundo com o propósito de ter nele uma fonte inesgotável de felicidade. Era, coitadinho, mais uma vítima do "Não pedi para nascer", e usava o "slogan" ao limite, com plena consciência do poder negocial que lhe oferecia. Com um trunfo acrescido: sabia bem que, ao contrário de qualquer outro vulgar empregado, o patronato jamais consideraria a hipótese de o despedir.

 

O meu filho entretanto cresceu e fez-se à vida, mas de cada vez que vou a uma escola falar com adolescentes - e vou muitas vezes - percebo que o que não faltam são clones daquilo que ele era. Miúdos perfeitamente certos de que estudam para os pais, que "tiram notas" para os pais, imaginando que devem fazer a escolha profissional que mais lhes agrade e, eventualmente, encontrar o emprego que a família considere recompensar melhor o investimento feito. Quando não imaginam que é o mundo inteiro que lhes deve tudo porque, afinal, estão sempre a dizer no telejornal que sem eles não haverá pensões para todos os velhos jarretas que veem à sua volta.

 

Não admira que reajam mal quando, fora da escola, os pais ainda se atrevem a ditar regras e impor limites, porque, caramba, até os trabalhadores franceses fizeram lei de não serem contactados fora de horas de serviço.

 

Não é fácil inverter o jogo, porque os pais estão demasiado contaminados por um sentimento de culpa idiota, como se fosse necessário justificarem o suposto egoísmo de os terem tão profundamente desejado e de os amarem tão apaixonadamente. Sem benefício para ninguém.

 

Por outras palavras, era bem melhor que em lugar de oscilarmos entre "Pais-desculpa-qualquer-coisinha", e "Pais-como-é-possível-depois-de-tudo-o-que-fiz-por-ti", deixássemos bem claro que a vida é um dom precioso, que vem com a obrigação pessoal e intransmissível de fazermos dela o melhor que nos for humanamente possível. Podemos ajudá-los nos primeiros passos, mas a partir daí o caminho é deles. Mérito e desmérito, pertencem-lhes por igual. Decididamente, se abrirmos mão dos louros pelas suas vitórias, será bem mais fácil não nos sentirmos tão responsáveis pelas suas falhas.

 

Jornalista

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