Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 08 de maio de 2018 às 20:17

Reclamações dos filhos deviam prescrever

Dez anos depois das criaturas terem atingido a maioridade, acabavam-se os queixumes acerca da incompetência parental. Prepare-se a lei!

Ainda na ressaca do Dia da Mãe, tomei consciência de que as reclamações dos filhos acerca da incompetência parental deviam ter um prazo de validade. Isso mesmo, prescreviam dez anos depois das criaturas terem atingido a maioridade, por exemplo. E é a favor, porque seguindo a moda de os tornar autónomos para as decisões mais fundamentais das suas vidas cada vez mais cedo, talvez fosse justo contar uma década a partir dos dezasseis anos, e ponto final. Afinal, se tudo prescreve, porque é que a culpa não havia de prescrever?

 

As mães sentem-se culpadas a partir do momento da concepção, quando não é antes. Culpam-se porque o parto foi por cesariana, e culpam-se porque foi natural, culpam-se porque amamentaram, ou porque deixaram de amamentar, culpam-se por terem sido firmes de mais, ou firmes de menos, e culpam-se de cada vez que o queixo de um filho treme ameaçando lágrimas ou não está com um sorriso na cara e a dar saltos de contentes 365 dias por ano. Pouco importa se têm cinco, quinze ou trinta anos, o processo de autopunição não acaba. Nunca acaba.

 

Os filhos são inteligentes, e aprendem depressa que as suas reivindicações e queixumes colhem fundo no coração das mães. Nalguns casos até se voltariam a levantar da queda, passando uma mão rapidamente pelos joelhos esfolados, mas perante uma mãe que os vem socorrer afogueada, premiando-os com um gelado se forem muito corajosos e não chorarem, intuem que têm ali uma mina de aflição a explorar. E exploram-na, revelando-se peritos em receber indeminizações por danos materiais e psicológicos, que envergonham aquelas que são atribuídas pelos tribunais. Na prática, tudo resulta tão bem que só se fossem mentecaptos desistiam à medida que crescem. Como todos nós bem sabemos porque, sendo ou não mães, somos filhos.

 

Quarenta anos passados sobre a ida para a Primária, protestam pela escolha da escola, onde garantem se terem sentido devastadoramente infelizes - sei do que falo, porque repetidamente inscrevi a queixa no Livro de Reclamações da minha pobre mãe, que em vão se justificava com o facto dos meus seis irmãos antes de mim terem gostado de lá andar. 

 

Vinte anos depois do primeiro acampamento, queixam-se veementemente de que as mães só os despacharam para lá porque se queriam livrar deles, ou acusam-na de "nunca" (a palavra "nunca" é essencial nestas reclamações!) os ter ajudado com os TPC, deixado sair à noite, permitido recusar a sopa, ou de uma vez os ter esbofeteado quando não "estavam a fazer nada". Some-lhe ciúmes, guerras de irmãos, comparações com filhos supostamente favoritos e o filme fica completo. 

 

A lista das reclamações é infinita, e de nada vale à mãe garantir que não se lembra, que não foi bem assim, ou procurar recordar-lhes de que perto deles, naquela idade, ou mesmo agora, até a mãe mais sã teria acessos de desespero. Não adianta. Nestes ajustes de contas a racionalidade não entra, e cada um memoriza o que mais o marcou, como sabe qualquer juiz perante duas testemunhas de um mesmo acidente. Aliás, para dizer a verdade, a imparcialidade nem sequer faz parte das regras deste jogo, porque o veredicto foi decidido à partida: a culpa é da mãe! Sem recurso.

 

E é claro que a culpa é mesmo da mãe. Nossa, portanto. Que preferimos assacar os prejuízos, por conta dos benefícios: ficar com a culpa é a única forma de colher também o mérito pelo que correu bem, pelas pessoas extraordinárias em que se tornaram. Mas há dias em que não compensa. Por isso, repito, impõe-se um prazo de prescrição. Depois disso, vamos deixar as mães em paz.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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