Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 05 de junho de 2018 às 22:15

Ser otimista é uma canseira

Há cursos de optimismo, estudos que garantem que dá saúde e faz crescer, mas ninguém fala na trabalheira que ser optimista implica.

Não faço ideia de onde vem o otimismo, se nasce connosco, o contraímos no berço, ou resulta do exemplo dos otimistas de serviço que nos rodeiam. É claro que um destes dias alguém o vai atribuir a um qualquer gene, se é que já não o fizeram, mas desconfio de que acabará por ganhar a teoria do caldeirão em que caímos, onde a poção do que somos ferve e se mistura. 

 

Adiante. O que importa é que até agora pensei sempre que ser otimista era uma bênção - otimismo do verdadeiro, não do irritante, bem entendido -, lamentando, com alguma sobranceria, admito, os pessimistas a quem atribuía uma existência atribulada. Até ontem. Porque ontem fui vítima de um eureka!, tomando consciência da trabalheira que dá acreditar não só que os problemas têm solução como, muito mais cansativo ainda, que temos de fazer por isso. E é nessa visão de escuteiro mirim que está tudo estragado, porque enquanto o pessimista pode ficar sentado no sofá a ver séries na televisão, certo de que tanto faz envolver-se ou não porque dá no mesmo, o raio do otimista sente-se implicado em tudo, desde a placa de trânsito que se estivesse colocada cem metros mais cedo podia evitar engarrafamentos até ao bom funcionamento da empresa onde trabalha, ou o país onde vive. 

 

Contudo, ao acreditar na sua própria omnipotência, condena-se não só a agir, como a viver eternamente culpado sempre que finge não ver ou quando não põe em prática as suas boas intenções. Ou seja, até pode acabar no mesmo sofá que o pessimista, mas moí-o por dentro a cobardia ou a passividade de que foi atacado.

 

Enquanto isto, as escolas de gestão pelo mundo fora garantem que o otimismo é uma qualidade fundamental de liderança e coisa e tal, e os estudos asseguram que os otimistas são mais felizes, vivem até mais tarde, e até li um relatório que assegura que vendem mais 37 por cento de seguros de vida do que os pessimistas, certamente por serem capazes de convencer os compradores de que até para a morte há remédio.

 

Basta aliás um Google para descobrir academias e cursos online nos quais se promete ensinar o otimismo, acreditando que com persistência e treino podem livrar-se da obsessão pelo perfecionismo, da urgência do controlo, conquistados para as vantagens de um pensamento criativo e flexível que por arrasto levará a uma maior confiança na humanidade. Mas não vi em lado nenhum a advertência para a carga de trabalhos que virá com esta mudança. Deixar de ser comentador de bancada e profeta de desgraças não deve ser nada fácil. Os pessimistas que habilmente se resguardaram de errar e falhar pela simples circunstância de que não foram a jogo terão, suponho eu, enorme dificuldade em passar a suportar os comentários com que os otimistas são diariamente bombardeados. O mais habitual é a qualificação de tontinhos, que não entendem a gravidade da questão, nem abarcam o que realmente se passa no mundo. Segue-se-lhe o "Ah, mas assim também eu!", a que subjaz a ideia de que o otimista arrisca e envolve-se porque tem um pai rico, uma conta bancária choruda, é feliz no amor ou possui uma qualquer benesse que falta a quem não mexe uma palha. E, por fim, o epíteto de ingénuos, por acreditarem que o seu insignificante gesto pode alterar o curso predeterminado dos acontecimentos. Decididamente, se vai mudar de "estado", pense bem naquilo em que se vai meter.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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