Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 21 de maio de 2019 às 18:08

Socorro, o meu chefe é hiperativo

É verdade que, por vezes, o hiperativo é brilhante, mas o seu sucesso junto dos superiores resulta mais provavelmente de toda a sua agitação ser interpretada como produtiva, quando avaliada ao longe, bem entendido.

Não sei porque é que se passa a vida a falar de crianças hiperativas, que têm bicho-carpinteiro, e ninguém diz uma palavra sobre os adultos hiperativos. Aqueles adultos, querendo com este plural masculino referir-me a homens e a mulheres, que não conseguem estar um minuto quietos, agem por impulso e são incapazes de ouvir alguém até ao fim.

 

São aqueles que saltam da cama frenéticos, mesmo quando não dormiram mais do que umas horas, e passam o dia a correr de tarefa em tarefa, sempre com o credo do "E a seguir, o que fazemos?" na boca, incapazes de sossegarem com um livro na mão, ou sentados quietos a uma mesa, presos de uma ansiedade que contagia qualquer um. Imagino-os sempre como o tigre da história infantil, que de tanto correr atrás da própria cauda, acabou por se transformar em manteiga.

 

Mas a forma como infernizam a vida da família é lá com eles, o pior é quando nos calham como colegas de trabalho ou, muito mais grave ainda, como chefes. Um chefe hiperativo, de que o divórcio seja impossível, é um pesadelo na vida de qualquer um.

 

Um diretor hiperativo chama-nos de dois em dois minutos ao gabinete e depois dedilha furiosamente no telemóvel, ou pega-se mesmo o telefone, aparentemente esquecido daquilo que nos queria dizer, e quando finalmente conversamos, interrompe-nos o raciocínio com tantas perguntas e interjeições que não conseguimos levar um pensamento até ao fim. São aquelas criaturas de tal forma agitadas que damos por nós a correr atrás delas por corredores afora, escadas acima, escadas a baixo, a tentar resolver um assunto pendente e urgente, porque não nos sobra outra hipótese.

 

Nada disto é comparável, porém, aos seus impulsos: tanto mandam deitar abaixo uma parede, como pô-la de pé, abrir uma sucursal ou fechá-la, deixar de produzir "pickles" para passar a vender amendoins, ou tudo isto e o seu contrário. Nunca se sabe. E não vale a pena dizer nada porque não ouvem. Não são capaz de se concentrar o tempo suficiente para realmente escutarem o que lhes dizemos - o que não significa que, quando as coisas correm mal, não nos apontem o dedo, repreendendo-nos por não os termos avisado.

 

Mas apesar deste comportamento errático, e por estranho que pareça, regra geral o hiperativo adulto vai longe na carreira, ou seja tem fortes probabilidades de chegar a um lugar de comando, a um lugar de estrelato na política. É verdade que, por vezes, o hiperativo é brilhante, mas o seu sucesso junto dos superiores resulta mais provavelmente de toda a sua agitação ser interpretada como produtiva, quando avaliada ao longe, bem entendido. Sobem também porque vencem os demais pelo cansaço, e não há ninguém que não esteja disposto a dar-lhes o lugar, ou a abdicar da pretensão a um posto, só para se ver livre deles. Suspeito que por trás de muitos ministros amigos de reformas e contrarreformas, está sempre um ser destes.

 

Então e o que fazer quando não podemos mesmo fugir deles? O primeiro passo é tomarmos o calmante ou a anfetamina, ou lá o que é, que eles não tomam.

 

O segundo, é abordá-los com um tópico de cada vez, apresentado da forma o mais sintética possível, pedindo apenas como resposta um sim ou um não. Fechado esse assunto, passe ao próximo, e por aí adiante.

 

O terceiro passo é não obedecer imediatamente. Espere um bocadinho, porque é provável que amanhã esteja a pedir-lhe o contrário. O quarto conselho é, obviamente, procurar urgentemente um novo emprego.

 

Jornalista

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